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Criatura mitológica ou erro de digitação? A verdadeira origem do Demogorgon

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 27/11/2025 às 10:00 · Atualizado há 1 dia
Criatura mitológica ou erro de digitação? A verdadeira origem do Demogorgon
Foto: Reprodução / Arquivo

“O Demogorgon!”, exclama Mike Wheeler no primeiro incidente de Stranger Things. A pessoa é uma das maiores ameaças em um jogo de Dungeons & Dragons, descrita pela Wiki da Forgotten Realms (editora que publica os livros do RPG de mesa) porquê “o senhor demônio e potestade menor da dominação e da drenagem de vontade (…) uma personificação da loucura e da devastação que buscava impelir todos para as profundezas infinitas do Precipício”.

Nos primeiros livros de D&D, o Demogorgon era retratado porquê sendo bípede (ou seja, anda ereto em duas pernas), com um corpo tapado de escamas reptilianas, pernas de dinossauro, tentáculos nos lugares dos braços, rabo longa e duas cabeças de macaco babuíno. Edições posteriores mantiveram quase todas essas características, mas, na versão 5e (a mais recente), as duas cabeças ficaram mais animalescas e o corpo, mais bombado.

Na série, os meninos usam “Demogorgon” para nomear a pessoa esguia e dextro que aterroriza a cidade de Hawkins, abocanhando as vítimas com a mandíbula que só fica visível quando são abertas as “pétalas” de sua cabeça monstruosa.

Mas Dungeons & Dragons não foi a primeira obra de ficção a ter um Demogorgon. Na verdade, essa pessoa já vinha sendo mencionada há séculos

A origem do nome

A menção mais antiga conhecida a Demogorgon está em um texto escrito por volta de 350 e 400 d.C. Em um glosa sobre Tebaida, uma poema do poeta romano Estácio, o erudito cristão Lactâncio Plácido faz referência a “Demogorgon, o deus supremo, das quais nome não é permitido saber”.

Estudiosos de hoje acreditam que, provavelmente, o “Demogorgon” de Plácido foi uma construção errônea da vocábulo δημιουργός (dēmiourgós), do heleno velho. Originalmente, a vocábulo “Dēmiourgós” vem da junção de “dêmos” (povo) e “érgon” (trabalho, obra). Dēmiourgós/demiurgo era usada para nomear “aqueles que trabalham para o povo”, porquê artesãos, médicos e construtores.

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No entanto, Plácido provavelmente se refere ao caráter mais metafísico da vocábulo, em que demiurgo designa um deus “falso”, dissemelhante daquele que criou o universo. Essa concepção surge com Platão, que usa o termo “demiurgo” para descrever uma figura sobrenatural no diálogo Timeu: “Um artesão divino que organiza o caos e molda o cosmos segundo formas perfeitas”. Outros pensadores posteriores mantiveram interpretações parecidas, atribuindo ao termo “demiurgo” o sentido de um artesão ou feitor cósmico.

O problema é que Plácido fez a trapalhada e, em vez de “demiurgo”, usou “demogorgon”. Essa vocábulo pode ser interpretada porquê a união de “dêmos” (povo) e “gorgon” (as górgonas, porquê a Medusa, eram monstros capazes de transformar suas vítimas em pedra). Mas o demogorgon, porquê pessoa, nunca fez segmento da mitologia grega e nem da romana.

De qualquer forma, a confusão estava feita.

Superfamoso

Foi o responsável italiano Giovanni Boccaccio quem colocou o Demogorgon de vez no imaginário popular. De negócio com o professor James K. Coleman, da Universidade de Pittsburgh, Boccaccio não era um profissional em mitologia, mas adorava se exibir fazendo citações a textos gregos. Ele provavelmente leu o nome inexacto em qualquer lugar e tomou aquilo porquê claro.

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No século 14, ele incluiu o bichão em sua genealogia de criaturas míticas, a Genealogia deorum gentilium (ou Genealogia dos deuses pagãos), uma das obras mais influentes do Renascimento para o estudo e sistematização da mitologia greco-romana. A obra o descreve porquê “uma figura sombria, envolta em nuvens e penumbra que ocultam quaisquer traços mais específicos”.

Na prática, Boccaccio transformou o Demogorgon em uma potestade solene. Depois disso, o sujeito começou a brotar por todo lugar. Ele está em O Paraíso das Fadas, de 1590: um poema heróico escrito pelo britânico Edmund Spenser, onde é descrito porquê um dos governantes do inferno. Está na peça Doctor Faustus, de Christopher Marlowe, onde o protagonista tenta lembrar o demônio Mefistófeles e acaba chamando o Demogorgon no lugar. Está em Paraíso Perdido, um poema heróico do século 17 e obra máxima de seu responsável, o britânico John Milton, indigitado porquê “o nome temido”.

É curioso notar a transformação pela qual o Demogorgon passou no período. Durante o início da Idade Moderna (entre 1450 e 1750), era generalidade que escritores usassem os nomes de divindades mitológicas (Júpiter, Minerva, etc.) porquê nomes de demônios, visto que muitas pessoas realmente acreditavam que as divindades cultuadas na Antiguidade Clássica eram, na verdade, demônios. Assim, o Demogorgon passou de uma vaga potestade ascendente na mitologia renascentista a um demônio malévolo do inferno.

A glorificação do Demogorgon veio em 1820, no drama de armário Prometheus Unbound, do britânico Percy Bysshe Shelley. Na história, as personagens Asia e Panthea descem à caverna do Demogorgon e o encontram sentado em seu trono.

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“Vejo uma trevas poderosa/ Preenchendo o assento do poder, e raios de penumbra/ Circulam porquê a luz do sol do meio-dia,/ Invisíveis e sem forma; sem membros,/ Nem forma, nem perímetro; porém, sentimos que é/ Um Espírito vivo” – assim a peça descreve a pessoa.

Posteriormente na peça Demogorgon destrona o deus Júpiter, pai dos deuses, e liberta Prometeu de sua prisão onde a águia lhe devorava o fígado diariamente. Depois dessa história, a glória do Demogorgon porquê uma pessoa poderosa, nefasta e com poderes quase divinos estava cimentada.

Tempos modernos

Em 1976, surge a primeira edição de Dungeons & Dragons, em que o Demogorgon tem a ar animalesca que descrevemos no primórdio. Com cinco metros de profundidade e 200 pontos de vida, ele batia um recorde para a era. Conforme o RPG foi sendo atualizado, o monstro deixou de ser unicamente um monstro e ganhou “lore” (enredo, história pregressa).

Na terceira edição, por exemplo, ele passou a ser descrito porquê o governante da 88a classe do Precipício e suas cabeças (nomeadas Aameul e Hethradiah) foram ditas porquê donas de personalidades diferentes, com os conflitos entre as duas sendo percebidos pelos outros porquê insanidade. Na quarta edição, é explicado que o Demogorgon tinha unicamente uma cabeça até o deus Amoth dividi-la em duas.

Em 2007, o instituidor de D&D explicou a origem do Demogorgon em um fórum na internet: “Foram os gregos, em sua mitologia, que originalmente criaram o Demogorgon. Ele era considerado a força elemental da terreno, aquela que fazia as vegetalidade crescerem, e por isso era retratado porquê um velho tapado de musgo. Escritores medievais o demonizaram, transformando-o em um terrível governante do submundo — uma representação muito mais colorida para uso em um RPG de mesa”.

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