m Edimburgo, lojas de bruxaria são porquê farmácias no Brasil: tem uma a cada esquina. Lá se vendem velas, livros de ocultismo, incensos superfaturados, pelúcias de gatos pretos e umas 20 versões de baralhos de tarô.
O turismo da capital escocesa está intimamente ligado às bruxas, com ruas que inspiraram a autora de Harry Potter até passeios noturnos que contam a história de cidadãos acusados de bruxaria no início do século 17. O rei Jaime VI, que governou a Escócia entre 1567 e 1625, foi o rei que mais se envolveu com a perseguição às feiticeiras hereges. No Fortaleza de Edimburgo, no meio da cidade, mais de 300 supostas bruxas foram enforcadas ou queimadas ao longo deseu reinado.
Durante 200 anos, países porquê Escócia, Alemanha, Suíça e França compartilharam de um profundo susto de bruxas. Estima-se que esse pânico tenha resultado na morte de 40 milénio a 60 milénio pessoas nos séculos 16 e 17, condenadas por um delito que não existe (1). Os julgamentos eram sérios, conduzidos por juízes renomados, com o aval da Igreja e do Estado, e apoiados pela população.
A caça às bruxas está longe de ser exclusivamente um surto coletivo. Foi um fenômeno organizado, contando com um tórax lítico e teológico que permitiu as condenações – por mais absurdas que fossem. Vamos entender por quê.
E lá vamos nós
Feitiçaria não é um noção estranho a culturas ancestrais. A teoria de usar magia para controlar o clima, sarar doenças ou promover uma boa caçada está presente em diferentes povos, com suas devidas adaptações locais.
A prática costuma estar relacionada à religião, podendo ser usada tanto para o muito quanto para o mal. Essa representação está em uma das histórias escritas mais antigas do Poente: a feiticeira Circe, na Odisseia de Homero (século 8 a.C.), que transforma homens em animais.
Já o noção da feitiçeira em si tem lugar e data de promanação (um pouco) mais precisos: Europa medieval, quando o cristianismo já estava muito estabelecido. A inspiração vem de elementos da religião greco-romana, porquê as lâmias (criaturas femininas que se alimentam de homens e crianças), as harpias (mulheres-aves que voam) e até os bacanais (festas orgiásticas dedicadas ao deus Baco). As orgias, porquê você verá, são uma propriedade indispensável das bruxas.
A musa das bruxas foi Diana, divindade da caça e da Lua na mitologia romana. Assim porquê as feiticeiras medievais, ela está associada à natureza e a caçadas noturnas. É uma divindade que se apresenta em três formas – uma delas é Hécate, divindade da magia, das ervas e do submundo. Mais feitiçeira, impossível.
Portanto, finalmente: porquê todas essas inspirações greco-romanas acabaram em um caldeirão e deram origem à feitiçeira que conhecemos? Um ponto-chave dessa história foi a geração e a consolidação do Diabo.
Em muitas doutrinas antigas, o muito e o mal eram faces da mesma moeda. Poseidon, deus helênico dos mares, poderia bendizer ou pragar os navegantes, a depender do seu humor (e das oferendas concedidas a ele). As religiões monoteístas, por outro lado, separaram esses conceitos em duas entidades distintas.
A primeira fé monoteísta de que se tem registro foi o zoroastrismo, que surgiu na Pérsia (atual Irã) há mais de 3,5 milénio anos. Ele introduziu os conceitos de firmamento e inferno (“paraíso” é uma vocábulo de origem persiano, por exemplo), de anjos e demônios e do dia do julgamento final – ideias que, muitos séculos mais tarde, inspirariam as bases do cristianismo.
A separação entre o muito e o mal fez surgir (na visão religiosa, é evidente) uma figura diretamente oposta a Deus – e, junto, a possibilidade de gerar pactos com ela. As bruxas, portanto, seriam pessoas que selaram esse convenção por conta própria, usando a magia para servirao tinhoso.
“A melhor maneira de entender a crença em bruxas é porquê um texto que foi desvanecido e reescrito no mesmo papel”, diz Mikki Brock, historiadora técnico em caça às bruxas. “É o empilhamento de ideias. Uma combinação de crenças clássicas com folclore, interpretações teológicase eventos vividos.”
Nos séculos seguintes ao início do cristianismo, construiu-se a teoria de bruxaria porquê uma versão de tradições e histórias pagãs ao olhar da Igreja. Quem estivesse cultuando outras entidades estaria, na visão cristã, relacionando-se com demônios. Simples assim.
Preparando o terreno
A caça às bruxas, vale expor, não ocorreu na Idade Média (século 5 ao século 15). Essa era, no entanto, estabeleceu algumas das bases para que a perseguição atingisse o auge na Idade Moderna.
A primeira delas foi um documento chamado Canon Episcopi, que se tornou lei da Igreja em 1140. Ele diz que algumas mulheres acreditavam estar cavalgando à noite com a divindade pagã Diana (olha ela aí!), juntando-se em grupos femininos na floresta. Segundo o texto, esses devaneios eram induzidos pelo Diabo, que queria distanciar as mulheres de Deus e do cristianismo. A crença nessas visões eraconsiderada heresia.
Em 1252, o papa Inocêncio IV (que de singelo não tinha zero) autorizou o confisco de bens, a prisão e a tortura de pessoas suspeitas de heresia. Foi a globo levantada que o papa seguinte, Alexandre IV, precisava para dar o galanteio: Alexandre decretou que a feitiçaria poderia ser julgada junto com a heresia.
No século 14, o cenário já estava montado para a perseguição. Na era, crescia uma vertente da Igreja que acreditava que as tais “cavalgadas noturnas” não eram imaginárias, mas sim uma bruxaria real – e que precisava ser combatida. Em 1484, o papa Inocêncio VIII publicou o Summis Desiderantes Affectibus, documento que legitima os inquisidores para julgarem as bruxas.
O Summis é resultado das denúncias do frade Heinrich Kramer, um inquisidor ferrenho tão obcecado por bruxas quanto o Sr. Crocker é obcecado por fadas em Os Padrinhos Mágicos. Kramer é responsável do principal guia de caça às bruxas: Malleus Maleficarum (“O Martelodas Feiticeiras”).
Publicado em 1486, a primeira secção do Malleus apresenta argumentos teológicos da existência da bruxaria. A segunda traz exemplos práticos (com descrições pornográficas) das ações das bruxas. A terceira e última secção descreve porquê um julgamento de bruxaria deveria ser orientado, quais aspectos observar e porquê usar tortura para interrogar as suspeitas.
A feitiçeira tá solta
Qualquer cidadão europeu dos séculos 16 e 17 descreveria uma feitiçeira da mesma forma: uma pessoa, geralmente mulher, que fez um pacto com o Diabo. Ela voava à noite em direção à floresta para participar de encontros com outras bruxas (os sabás). O sigilo da levitação era uma pomada que elas passavam em vassouras e nopróprio corpo.
Ao chegarem à floresta, elas davam início ao sabá: matavam e comiam crianças, faziam sexo com Satã (e entre si) e renunciavam à fé cristã, às vezes usando crucifixos porquê sapato ou defecando em cima da hóstia.
A cena deixaria qualquer vovó de cabelos em pé. Um tanto assim nunca aconteceu, evidente – mas era o que se pensava que ocorria na mata. Boa secção desse imaginário vem do Malleus, que teve 28 edições em exclusivamente 100 anos – um best-seller.
O livro argumenta que as mulheres são mais suscetíveis a fazer o pacto com o Diabo por serem fracas, carnais e estúpidas. Caíam facilmente em tentação. O oração misógino dá respaldo para as acusações direcionadas a elas: 80% das pessoas julgadas por bruxaria na Europa foram mulheres (a porcentagem varia dependendo da região; em alguns países, porquê a Rússia, houve mais homens condenados pelo delito do que mulheres).
Embora já houvesse julgamentos por bruxaria antes, a situação estourou na metade do século 16, com o início da Reforma Protestante. Em suas 95 teses publicadas em 1517, Martinho Lutero critica a Igreja Católica, mas não se opõe à perseguição às bruxas. Pelo contrário: os protestantes foram até mais engajados em expulsar as bruxas do que os católicos.
Apesar da cisão da Reforma, havia um notório pacto de não agressão em relação às bruxas. “Os católicos não acusavam os protestantes de bruxaria, e vice-versa. As perseguições ocorriam dentro das próprias religiões”, diz Brock. “É porquê se estivessem limpando a morada, garantindo que nenhum descrente, feitiçeira ou transgressor fizesse secção da comunidade.”
Os julgamentos católicos eram conduzidos pela Interrogação. Entre os protestantes, não havia uma única instituição responsável – os casos costumavam ser julgados por juízes independentes. A perseguição era mais intensa em locais que sofriam com a inópia, a peste e as intempéries climáticas. O motivo de tanta desgraça, para eles, só podia ser feitiçaria.
As acusações geralmente estavam relacionadas à esfera doméstica e do campo: a vizinha que botou uma praga na plantação; a senhora que deixou a garoto doente; a moça que matou a vaca de outro camponês. Bastava um olhar mal-encarado ou xingamento para ser tachada de feitiçeira.
Essas mulheres eram cidadãs comuns, sem grande status social ou econômico. Havia uma tendência a acusar mulheres de meia-idade ou idosas. “Elas tinham mais sabedoria, e acreditava-seque elas não deveriam possuí-la. Aos olhos da população, elas teriam inveja da fertilidade das mais jovens, o que é um motivo para elas terem sido as mais atacadas”, diz a historiadora.
Havia meios curiosos de testar se alguém era culpado. Um deles era jogar a acusada num lago: se afundasse, era singelo; se flutuasse, era feitiçeira. A lógica era que a chuva seria uma geração divina, que rejeitaria alguém que fez um pacto com o Diabo. O problema: uma vez confirmado o naufrágio, era preciso agir rápido para que um singelo não se afogasse.
Uma das primeiras cidades em que o pânico se instaurou foi Trier, na atual Alemanha. Porquê em toda a Europa, as suspeitas de bruxaria que negavam as acusações apanhavam. Ao cederem à pressão, eram obrigadas a falar quais outras mulheres participavam do sabá, criando um ciclo de denúncias infundadas motivadas pela tortura.
Em Trier, boa secção das acusações foi feita por Dietrich Flade, um proprietário de terras importante que entra para a lista dos homens obcecados por bruxas. Até que o manipanço virou contra o mágico e ele mesmo foi criminado de bruxaria. Depois sessões de tortura, ele admitiu participar dos sabás e morreu enforcado.
Ao contrário do que se imagina, as bruxas raramente eram queimadas vivas. Elas quase sempre morriam enforcadas – a morte rápida era um suposto ato de misericórdia. O corpo ia para a fogueira em seguida. O objetivo era evitar que o Diabo continuasse a agir por meio do sucumbido.
Na era, os territórios de Alemanha, Áustria e Suíça faziam secção do Sacro Predomínio Romano--Germânico. Essa foi a região com o maior número de julgamentos e mortes por bruxaria, com uma estimativa de 20 milénio a 25 milénio execuções (2). A prelo ajudou a espalhar o pânico para diversos países da Europa, publicando até ilustrações dos supostos sabás.
Fora do Predomínio, um dos locais mais impactados foi a Escócia. O rei Jaime VI acreditava que as bruxas haviam sido responsáveis por uma tempestade intensa que quase o matou numa viagem de navio. Ele intensificou a caça e se tornou o único rei da História a publicar um tratado sobre bruxaria,o Daemonologie.
A situação piorou quando o rei assumiu o trono da Inglaterra e Irlanda, sob o nome Jaime I. Ele espalhou suas ideias por toda a Grã-Bretanha, resultando em 4,8 milénio julgamentos e 3 milénio execuções (2). Jaime também encomendou uma novidade tradução da Bíblia em inglês, substituindo o termo “mágico”por “feitiçeira” (3).
Em terras britânicas, era generalidade cutucar as acusadas com uma agulha, em procura da “marca do Diabo” – um lugar do corpo que, quando perfurado, não causaria dor. Os inquisidores também buscavam pela “teta da feitiçeira”, um suposto mamilo (que na prática podia ser uma pinta) por onde acreditava-se que as bruxas alimentavam seus familiares com o próprio sangue.
Os familiares (ou imps, em inglês) não eram parentes, e sim pequenos demônios que ajudavam as bruxas – e com quem elas (também) copulavam. Acreditava-se que eles assumiam a forma de bestas ou animais. Essa teoria foi provavelmente inspirada pelos gnomos e fantasistas do folclore celta. O gato preto da feitiçeira é um tipo de imp.
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O saldo do período de caça às bruxas foi de 110 milénio julgamentos na Europa (1). A poeira começou a decrescer na segunda metade do século 17. Curiosamente, a principal pretexto não foi a subida do pensamento científico, mas o aumento do ceticismo entre os próprios juristas e teólogos.
Os juristas começaram a se questionar se torturar pessoas era uma maneira confiável de obter informações (spoiler: não era). Já os teólogos diziam que a preocupação pelas bruxas colocava o Diabo no foco das discussões e distanciava as pessoas de Deus.
A expansão do Iluminismo, entre o final do século 17 e o início do século 18, também foi importante para que os países revissem sua legislação sobre o tema. À era da última realização por bruxaria na Europa, em 1782, a pena já era vista pela população porquê um contra-senso.
Talvez você tenha chegado até cá sentindo falta de um capítulo nessa história. A caça às bruxas foi um fenômeno majoritariamente europeu, mas não significa que não tenha respingado em outros locais. Vamos saber agora o que aconteceu nas Américas – e na cidade de bruxaria mais famosa de todas.
Muito-vindo a Salém
A vila de Salém, em Massachusetts (EUA), foi um ponto fora da curva. Apesar da notabilidade, lá ocorreram poucas execuções em conferência com as cidades europeias – só 19. A crença em bruxas foi importada pelos colonos ingleses, mas com tardança. Os julgamentos de Salém ocorreram em 1692, depois que o auge europeu já havia pretérito.
Tudo começou com duas meninas brincando de adivinhação para desvendar com quem iam matrimoniar. As crianças adoeceram pouco tempo depois, e o médico que as examinou cometeu o infeliz erro de expor que elas estavam enfeitiçadas por bruxas.
O pastor Samuel Parris, pai de uma das meninas, começou a acusar mulheres da comunidade. A melhora no estado de saúde das crianças era vista porquê sinalde que os julgamentosestavam funcionando.
Outros julgamentos ocorreram nas colônias inglesas, espanholas e até portuguesas. Pois é: no Brasil, a Interrogação portuguesa usava o termo “feitiçaria”, e as pessoas mais acusadas foram mulheres negras de religiões de matriz africana – uma heresia, aos olhos da Igreja. A Interrogação fez três visitas ao Brasil, em que reuniram acusados para serem julgados em Lisboa. O número de “feiticeiras” brasileiras acusadas é incerto.
Tanto no Brasil quanto na Europa, a bruxaria foi a forma que alguns cristãos encontraram para mourejar com crenças e tradições díspares – enquadrando-as porquê delito. Dessa forma, as bruxas eram uma prenúncio tão real quanto as doenças e a inópia.
“As pessoas envolvidas na caça realmente acreditavam que bruxas eram reais, numerosas, letais e precisavam ser mortas”, diz Mikki Brock. “É evidente que há misoginia e um contexto patriarcal na era, mas é importante levar a sério aquilo de que as pessoastêm susto.”
A situação não parece ter mudado muito ao longo dos séculos. O susto de conspirações ocultas continua vivo – só mudaram os alvos: judeus e comunistas no século 20; imigrantes e pessoas LGBTQIA+ hoje.
Tratar a caça às bruxas porquê um simples surto coletivo é ignorar sua lógica interna e suas raízes sociais. Porquê resume o historiador Jeffrey B. Russell, no livro História da Bruxaria: “Talvez estejamos formulando as indagações erradas quando perguntamos porquê isso pôde ter sucedido […] A verdadeira indagação a ser feita é por que ocorrem períodos derelativa sanidade”.
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Referências: (1) livro The witch-hunt in early modern Europe, de Brian P. Levack; (2) livro The witchcraft sourcebook, de Brian P. Levack; (3) King James Bible.
Fontes: livro História da bruxaria, de Jeffrey B. Russell e Alexander Brooks; Lina Gorenstein, historiadora técnico em quesito portuguesa.
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