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Introdução
O Ártico viveu seu ano mais quente desde 1900, aquecendo 4x mais rápido que o planeta. O derretimento de gelo, rios “enferrujados” e a “borealização” transformam a região, afetando ecossistemas e comunidades indígenas, como visto com o tufão Halong. Um alerta urgente para o “pulso do planeta”.
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- Ártico registra seu ano mais quente desde 1900, com temperaturas 1,6°C acima da média e aquecimento quase quatro vezes mais rápido que o restante do planeta.
- O degelo do permafrost está transformando rios em “rios enferrujados”, com águas laranjas, ácidas e tóxicas devido à oxidação de minerais.
- Fenômenos como a “borealização” das tundras (verdejamento) e a “Atlantificação” do oceano Ártico alteram profundamente os ecossistemas locais.
- A perda de 129 bilhões de toneladas de gelo das geleiras e a diminuição recorde do gelo marinho contribuem para o aquecimento e eventos extremos.
- Comunidades indígenas no Ártico sofrem diariamente com os impactos diretos, desde águas intoxicadas até desastres naturais como o Tufão Halong.
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O Ártico acaba de registrar seu ano mais quente desde 1900. Com temperaturas 1,6°C acima da média das últimas três décadas, a região polar norte segue sentindo os efeitos das mudanças climáticas desencadeadas pela queima de combustíveis fósseis. Desde 1979, o local tem esquentado em uma velocidade quase quatro vezes maior que o restante do planeta – fenômeno apelidado de amplificação do Ártico.
Foi também em 2025 que a região passou pelo seu primeiro outono, segundo inverno e terceiro verão mais quentes. Desse aquecimento emergem outros fenômenos alarmantes: derretimento de geleiras, rios “enferrujados”, “borealização” dos biomas de tundra e “Atlantificação” do oceano Ártico.
As estimativas são do mais novo Arctic Report Card, que, desde 2006, publica relatórios anuais monitorando mudanças nos “Sinais Vitais do Ártico” – indicadores dos processos marinhos, terrestres e atmosféricos da região. “Observar o ártico é medir o pulso do planeta”, afirmam os pesquisadores no documento.
O aumento das temperaturas tem tido uma série de efeitos nos ecossistemas locais. O mais expressivo, como o relatório aponta, é a intensificação do ciclo hidrológico – isto é, o ciclo da água, que abarca a evaporação e a precipitação, além do derretimento do gelo. O período entre outubro de 2024 e setembro de 2025 registrou níveis recordistas de precipitação.
Esse aumento na concentração de vapor de água na atmosfera – os chamados rios voadores – também retroalimenta o aquecimento, capturando o calor e impedindo que ele escape para o espaço.
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Continua após a publicidadeA diminuição da camada de gelo que cobre o Ártico – uma superfície reflexiva que rebate a luz solar – também tem piorado o aquecimento na região. Em junho, essa camada de gelo reflexiva tinha apenas metade da extensão que costumava ter nos anos 1960, o que significa que menos luz estava sendo rebatida, e mais calor estava sendo absorvido pelo solo.
Uma consequência curiosa disso é que as tundras, biomas frios e sem árvores, tem verdejado – e isso não é algo bom. A “borealização”, ou seja, o aparecimento de novas formas de vegetação, é um fenômeno observado desde os anos 1990, que traz consigo perturbações nos ecossistemas e na biodiversidade local. Por baixo das tundras, esse fenômeno também foi observado no fundo mar.
No mar, aliás, a situação não melhora. O oceano Ártico vem passando por um processo de “atlantificação”, que o tem tornado mais quente e salgado. Esse fenômeno acontece quando as águas do Atlântico Norte atingem latitudes superiores, bagunçando as camadas do oceano Ártico – ou seja, “fatias” do mar que separam águas de diferentes densidades e temperaturas, e isolam o gelo marinho contra águas inferiores mais quentes.
Comparado aos 47 anos de registros de satélite que se tem do oceano Ártico, a superfície reflexiva de gelo marinho tem hoje sua menor extensão anual máxima, o que também tem contribuído para a permanência do calor na superfície da região.
Continua após a publicidadeO mais chocante, porém, provavelmente são os rios “enferrujados”. Mais de 200 bacias hidrográficas árticas de águas antes límpidas agora refletem um vívido tom de laranja. Isso tem a ver com o degelo permafrost – uma camada congelada de solo, rocha, sedimento e areia que se estende por baixo de 15% do território hemisfério norte.
O derretimento dessa camada tem exposto minerais a diversas formas de corrosão, como a oxidação do ferro. A ferrugem resultante tem colorido as águas dos rios como o pó de um suco de saquinho ainda mais ácido e tóxico. Entram nessa sopa também metais como cobre, alumínio e zinco, que comprometem ainda mais a qualidade da água, afetando ecossistemas e comunidades locais que dependem desses rios.
Já as geleiras deram sequência a uma tendência de diminuição, perdendo 129 bilhões de toneladas de gelo apenas no último ano. Esse derretimento tem contribuído para o aumento dos níveis dos oceanos, causado inundações, deslizamentos de terra e afetado sensivelmente a vida de comunidades locais.
Seria um erro grosseiro pensar que as implicações dessas mudanças ficam reservadas apenas para um futuro incerto – ou que são exclusivas a animais como o urso polar da capa desta reportagem. O ártico tem mais de 40 comunidades indígenas que, há mais de 10.000 anos, cultivam uma relação íntima de subsistência com os ecossistemas da região.
Continua após a publicidadeHoje, elas têm lidado diariamente com os impactos das mudanças climáticas em seus territórios, desde as águas intoxicadas dos rios até os desastres naturais sobre a terra.
A alta temperatura das águas contribuiu para que, em outubro de 2025, o Tufão Halong chegasse à costa sudoeste do Ártico, trazendo consigo inundações, ventos fortes e devastações cuja extensão até agora não foi bem compreendida. Vilas como as de Kipnuk e Kwigillingok foram destruídas quase por completo, e mais de 1.500 pessoas tiveram de ser evacuadas.
Os autores do relatório enfatizam que a colaboração com comunidades locais foi essencial para que se entendesse a abrangência dos impactos do aquecimento no Ártico.
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