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Por quatro anos, arqueólogos e cientistas do Museu Britânico e instituições parceiras vasculharam camadas de barro em Barnham, no leste da Inglaterra, em procura de vestígios da ocupação humana durante o Paleolítico Subordinado, a temporada mais antiga da pré-História. O que encontraram pode reescrever a cronologia da tecnologia mais decisiva de nossa espécie: a capacidade de produzir queimada.
O estudo, publicado no periódico Nature, aponta que neandertais primitivos faziam suas próprias fogueiras há 400 milénio anos, antecipando em incríveis 350 milénio anos a origem dessa prática.
A invenção envolve três elementos que apareceram no mesmo ponto da escavação: sedimentos aquecidos repetidamente, ferramentas da rocha sedimentar sílex, quebradas pelo calor, e fragmentos de pirita de ferro – o mineral que, ao ser riscado contra o sílex, funcionava porquê um isqueiro na Idade da Pedra.
Para os pesquisadores, esse conjunto de elementos representa a evidência mais antiga de queimada deliberadamente produzido por humanos.
A equipe do projeto Pathways to Ancient Britain (PAB), responsável pelas escavações, vem investigando o sítio desde 2013. Os trabalhos se concentram em uma pedreira desativada, onde sucessivas camadas sedimentares guardam dados sobre episódios climáticos e ocupações humanas ao longo de centenas de milhares de anos.
A meta inicial era compreender porquê os primeiros neandertais exploravam aquele envolvente. O queimada apareceu no caminho – primeiro porquê suspeita, depois porquê prova científica.
As primeiras pistas
O arqueólogo Nick Ashton, do Museu Britânico, recorda que a investigação tomou outro rumo em junho de 2021, quando ele identificou uma pequena mancha de barro avermelhada sob a sombra de um roble. A coloração destoava da barro amarelada típica do sítio.
Em expedido, Ashton escreveu que o invento intrigou os colegas. A hipótese inicial era de que talvez aquela barro tivesse sido aquecida. Confirmar isso, porém, exigiria anos de trabalho judicial.
A categoria avermelhada estava situada entre outras antigas camadas de barro depositadas no fundo de um lago que existiu ali no pretérito. A mudança de cor sugeria a formação de hematita, um mineral que aparece quando sedimentos ricos em ferro são expostos a altas temperaturas.
Para instituir se o aquecimento era originário ou produzido por humanos, a equipe recorreu a testes geoquímicos realizados em laboratórios da França, Alemanha, Áustria e Reino Unificado. Os resultados indicaram aquecimento supra de 700 °C e, mais importante, repetido no mesmo sítio.
Uma microscopia sedimentar mostrou que a barro não havia sido deslocada por erosão, o que afastava a hipótese de incêndios ocasionais na paisagem. A desenlace foi que tratava-se de uma lareira usada diversas vezes.
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A partir daí, faltava estabelecer a relação com quem acendeu o queimada. Novas trincheiras foram abertas nas imediações e revelaram uma concentração de artefatos de sílex ao volta da lareira.
Entre eles estavam quatro machados de mão quebrados pelo calor – evidência de que foram aquecidos propositadamente ou deixados próximos à fogueira durante atividades cotidianas.
Segundo os autores, a distribuição dos objetos indicava uma superfície de convívio. Era porquê um espaço recorrente de atividades humanas, dos quais núcleo da fogueira funcionava porquê ponto de encontro.
A robustez da versão, porém, vinha de outro elemento crucial: dois fragmentos de pirita de ferro encontrados em áreas associadas aos materiais aquecidos.
Em Barnham, a pirita não ocorre naturalmente. Essa constatação foi feita por Simon Lewis, geólogo que trabalha com Ashton desde 1988 e que catalogou 121 milénio pedras em 26 sítios da região.
Em mais de três décadas de buscas sistemáticas, nenhum mica de pirita havia aparecido. Os pesquisadores concluíram que os neandertais trouxeram a pirita de outro lugar – e só fariam isso com um propósito.
Segundo Ashton, a pirita era levada àquele ponto porque era o que permitia atear o queimada. A técnica consiste em friccioná-la contra o sílex para gerar faíscas sobre um material inflamável, muitas vezes fungos secos.
“Esse foi o primeiro isqueiro divulgado”, disse o arqueólogo Rob Davis, que participou do estudo, à BBC. “Aquele foi um momento crucial. Foi portanto que começamos a juntar as peças.”
Queimada sob demanda
O estudo estabelece uma diferença importante entre aproveitar o queimada de incêndios naturais – uma prática que remonta a mais de 1 milhão de anos – e produzir chamas sob demanda. O primeiro comportamento depende de eventos fortuitos, porquê raios.
O segundo exige conhecimento técnico, transmissão cultural e domínio de materiais específicos. Em Barnham, os pesquisadores encontraram um registro completo desse processo.
As análises mostraram que a barro avermelhada sofreu rajadas curtas e intensas de calor, compatíveis com pequenas fogueiras acesas consecutivamente no mesmo ponto.
O padrão não coincide com incêndios florestais, que tendem a aquecer de forma mais uniforme e difusa. A lareira estava situada sobre o macróbio solo formado quando o lago secou, sugerindo que neandertais usaram aquele espaço destapado porquê superfície doméstica.
Outros vestígios reforçam a versão: murado de três quartos dos artefatos de uma das áreas escavadas tinham sinais de aquecimento intenso – rachaduras e deformações, por exemplo.
Os arqueólogos passaram dias remontando peças quebradas, cada mica com numeração própria. A presença simultânea de objetos queimados, fogueira e pirita reforça o cenário de uso recorrente do queimada.
Davis explicou que o conjunto de evidências surpreendeu até os especialistas: “A relação daquela pirita com aquela lareira, com os artefatos queimados: foi portanto que tudo se encaixou. Isto é importante. Isto muda tudo”.
As descobertas também ajudam a compreender capacidades cognitivas e sociais dos neandertais primitivos. Porquê Davis escreveu em nota, produzir queimada “não é fácil”. Exige saber onde encontrar pirita, porquê manipulá-la contra o sílex e porquê preparar o material inflamável. Exige, ainda, transmitir o conhecimento da técnica ao longo de gerações.
Na avaliação do paleoantropólogo Chris Stringer, do Museu de História Proveniente, ouvido pela BBC, a invenção colocou esses grupos em outro patamar adaptativo: “Ter alguma coisa que pudesse fornecer queimada instantaneamente, quando e onde fosse necessário, foi crucial para as pessoas que migraram para lugares porquê a Grã-Bretanha há 400 milénio anos”.
Para ele, o domínio do queimada ampliou a capacidade de sobrevivência, sustentou mudanças evolutivas aceleradas e abriu caminho para cérebros maiores, dietas mais variadas e relações sociais mais complexas.
Stringer destacou ainda outro ponto: o crânio mais macróbio divulgado da Grã-Bretanha indica que os habitantes locais há 400 milénio anos não eram Homo sapiens, mas neandertais primitivos. Assim, é provável que as fogueiras de Barnham tenham sido acesas por eles.
Novo mundo
A invenção está situada dentro de uma longa história do queimada propositado. Muitas das grandes transformações humanas dependem da esbraseamento: da lavradio à metalurgia, da cerâmica à indústria moderna. Mas é a temporada mais antiga – a produção regular de calor e luz – que moldou nossa sociabilidade.
Ao prolongar o dia, fogueiras permitiram que caçadores-coletores tivessem tempo suplementar para fabricar ferramentas, relatar histórias, compartilhar informações e produzir vínculos. Estudos propõem que a linguagem se sofisticou em torno dessas interações noturnas.
Segundo Davis, a arqueologia do queimada enfrenta limitações severas. Fogos antigos desaparecem com facilidade: cinzas se dispersam, carvão se perde, sedimentos se erodem. Por isso, registros porquê o de Barnham são raros.
Outros sítios arqueológicos na Europa, porquê Beeches Pit (Inglaterra), Menez-Dregan (França), Terreno Amata (França) e Gruta da Aroeira (Portugal), oferecem pistas de uso de queimada entre 500 milénio e 400 milénio anos detrás. Mas nenhum havia demonstrado, até agora, a produção propositado da labareda.
Ainda não se sabe se grupos humanos distintos inventaram a técnica de forma independente ou se ela se espalhou por contato entre populações. Stringer sugere que os grupos que cruzaram a antiga ponte terrestre entre a Europa continental e a Grã-Bretanha podem ter levado o conhecimento consigo, mas essa é somente uma hipótese.
A equipe da escavação acredita que outras fogueiras feitas pelo mesmo método existiram em vários pontos da Europa, mas não deixaram vestígios tão preservados.
O que Barnham mostra é que a tecnologia já estava plenamente estabelecida 400 milénio anos detrás entre os neandertais. Para nossa própria espécie, Homo sapiens, o marco é muito ulterior. Os primeiros humanos modernos só chegariam à região 350 milénio anos depois do queimada de Barnham, e também foi por volta de 50 milénio anos detrás que começamos a fazer queimada, segundo evidências encontradas na França.
A invenção ainda abre novas linhas de investigação. Enfim, provar a produção de faíscas é dissemelhante de entender porquê essa tecnologia se espalhou, porquê foi ensinada, quais vegetação eram usadas porquê isca ou quão frequente era seu uso no cotidiano. Tudo isso precisará ser analisado em outras pesquisas.
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