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Aranhas minúsculas constroem espantalhos gigantes para afastar predadores

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 12/11/2025 às 16:00 · Atualizado há 1 dia
Aranhas minúsculas constroem espantalhos gigantes para afastar predadores
Foto: Reprodução / Arquivo

Em uma floresta úmida no sudeste do Peru, um guia percebeu alguma coisa estranho pendurado entre as folhas: uma aranha aparentemente enorme, imóvel, feita de pedaços de insetos e fios de seda.

Ao se aproximar, descobriu que não era um bicho, mas uma estátua engenhosa. No meio dela, quase invisível, estava uma aranha real –  tão pequena que caberia sobre a cabeça de um alfinete.

A cena, registrada pela primeira vez em 2012 e confirmada em expedições posteriores, deu origem a uma das descobertas mais curiosas da biologia recente.

Um estudo publicado na revista Ecology and Evolution documenta o comportamento de duas espécies de aranhas-tecelãs tropicais do gênero Cyclosa Cyclosa longicauda, da Amazônia peruana, e Cyclosa inca, que também é nativa da região andina mas tem uma população nas Filipinas.

Essas aranhas constroem em suas teias estruturas que lembram o corpo de um aracnídeo de tamanho muito maior, com pernas alongadas feitas de seda e detritos, porquê fragmentos de folhas e sobras de presas.

O teatro do ilusão

As estruturas, chamadas de estabilimentos, já eram observadas entre as aranhas-tecelãs: são faixas ou manchas de seda posicionadas no meio da teia, possivelmente com função de camuflagem, reforço estrutural ou atração de presas.

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O novo estudo, porém, é o primeiro a registrar estabilimentos moldados na forma precisa de outra aranha, criando uma espécie de espantalho.

“Elas não exclusivamente decoram suas teias – elas organizam meticulosamente detritos, carcaças de presas e seda em uma estrutura que não só é maior que seu próprio corpo, porquê também se assemelha claramente à silhueta de uma aranha maior e ameaçadora”, explicou em expedido o biólogo George Olah, da Universidade Pátrio da Austrália, responsável principal do trabalho.

Segundo ele, as Cyclosa transformam suas teias em verdadeiros “teatros de ilusão”, com cenários tridimensionais feitos para ludibriar inimigos.

O comportamento foi observado tanto em florestas tropicais peruanas quanto nas Filipinas. As aranhas, com murado de 2,5 milímetros de comprimento, posicionam-se muito no meio da estrutura, que chega a ser três vezes maior que seus corpos.

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Quando ameaçadas, vibram o abdômen para dar à réplica uma figura de movimento – o suficiente para convencer um predador visual, porquê um pássaro ou libélula, de que se trata de uma aranha muito maior e potencialmente perigosa.

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Os primeiros registros desse comportamento ocorreram de forma casual. Em 2012, pesquisadores filmavam a fauna da Suplente Pátrio de Tambopata, na Amazônia peruana, quando encontraram as teias decoradas.

Elas foram vistas novamente em 2014 e 2022, com documentação detalhada de 48 indivíduos, segundo o item. Nas Filipinas, estruturas semelhantes haviam sido vistas em 2012, nas encostas do Monte Kanlaon.

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Durante as observações noturnas, os cientistas perceberam que as aranhas seguem uma rotina meticulosa de construção. Por volta das 23h, tecem a estrutura principal da teia; depois, recolhem sobras de presas e detritos, que mastigam para moldar as pernas, que se articulam a partir de um núcleo medial.

O processo completo dura murado de 90 minutos, e costuma ser concluído antes do amanhecer – um horário estratégico, quando os predadores diurnos ainda não estão ativos.

“É provável que essas aranhas priorizem a construção do ‘espantalho’ durante a noite justamente porque ele é sua principal resguardo”, observam os autores no estudo.

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“Esse comportamento não é exclusivamente uma reparo biológica peculiar; ele ilustra uma indemnização evolutiva fundamental”, afirmou Lawrence Reeves, coautor do estudo e pesquisador da Universidade da Flórida, em nota. “Ao contrário de muitas aranhas que constroem um refúgio físico para se esconder, essas espécies de Cyclosa parecem investir seu tempo e recursos na construção de uma resguardo visual descartável.”

No Peru, os pesquisadores notaram que as aranhas “escultoras” convivem com espécies aparentadas que produzem estabilimentos mais simples – uma única risco de seda com poucos resíduos. Essa variação sugere estratégias distintas de sobrevivência. As construtoras das réplicas complexas parecem mais sedentárias, apostando em uma teia duradoura e muito protegida, enquanto as de decoração simples possivelmente mudam de lugar com mais frequência.

Os cientistas suspeitam que o comportamento tenha evoluído porquê resposta a predadores específicos. Na Amazônia, uma das maiores ameaças às Cyclosa são as libélulas da família Pseudostigmatidae, conhecidas porquê libélulas-helicóptero, que caçam aranhas pequenas diretamente em suas teias, e evitam indivíduos maiores.

Olah e Reeves propõem que a réplica em forma de aranha seja uma forma de mimetismo de tamanho, uma ilusão óptica que afasta esses caçadores especializados. Outras hipóteses apontam que as estruturas poderiam simular fezes de aves, um tipo de socapa já observado em outras espécies do mesmo gênero e também eficiente contra predadores visuais.

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O estudo também reuniu evidências de que o fenômeno pode ser mais largo. Estruturas semelhantes foram registradas em 2014 em Madagascar, durante as filmagens da série A Vida Secreta dos Animais, vencedora de prêmios Emmy. Isso sugere que o “teatro de ilusão” das Cyclosa pode ocorrer em várias regiões tropicais.

Com murado de 180 espécies conhecidas, o gênero tem representantes em todos os continentes. Para os autores, entender por que exclusivamente algumas desenvolveram o comportamento pode lançar luz sobre a evolução das defesas visuais nos invertebrados.

“É provável que uma seleção particularmente poderoso dentro desses dois grupos tenha resultado no desenvolvimento de uma resguardo visual cada vez mais complexa”, disse Olah. Estudos futuros devem confrontar as taxas de sobrevivência de aranhas com e sem as “aranhas de isca” para confirmar a hipótese.

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