Servidores da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) relatam preocupação crescente com os efeitos da escalada de tensão na Venezuela sobre a segurança regional e, sobretudo, sobre o ambiente político e institucional brasileiro às vésperas das eleições nacionais.
Em conversas reservadas com o ICL Notícias, agentes afirmam que a ação militar recente dos Estados Unidos contra o governo de Nicolás Maduro não é vista internamente como um episódio isolado, mas como parte de uma mudança profunda na ordem internacional, com impactos diretos para a América Latina e, em especial, para países com menor capacidade de dissuasão estratégica.
Na avaliação desses servidores, a ofensiva representa um precedente grave. Um dos agentes ouvidos descreveu o episódio como “extremamente preocupante”, por se tratar, segundo ele, do primeiro ataque militar direto dos Estados Unidos a um país latino-americano em décadas.
Na leitura interna, a ruptura de padrões tradicionais de mediação e diplomacia sinaliza que o direito internacional vem perdendo força como mecanismo de contenção de conflitos, abrindo espaço para decisões baseadas prioritariamente na lógica da força.
Esse cenário, segundo os relatos, afeta de forma direta países que não dispõem de instrumentos robustos de dissuasão.
Um país que não tem bomba atômica, que não tem uma defesa mais robusta, fica muito mais vulnerável
— afirmou um dos servidores.
Para ele, o Brasil, que historicamente se posiciona como liderança regional pela via diplomática, passa a depender ainda mais de uma inteligência estruturada, profissional e com capacidade de antecipação para proteger seus interesses estratégicos.
Dentro da Abin, a ação na Venezuela foi interpretada como um alerta direto. Agentes relatam que a agência produziu análises de cenários e comunicados sobre a instabilidade regional, mas reconhecem que a capacidade de oferecer informações mais precisas ao governo foi limitada por restrições estruturais acumuladas ao longo dos últimos anos.
A gente faz prospecção de cenários, levanta hipóteses, avalia consequências. Mas hoje a gente não tem mais o diferencial da inteligência, que é o dado negado
— afirmou um servidor, em referência às informações obtidas por fontes humanas e canais reservados.
Segundo os relatos, a perda desse “dado negado” está diretamente ligada à falta de recursos orçamentários. Agentes afirmam que a Abin não dispõe atualmente de condições financeiras para recrutar novas fontes ou manter uma rede ativa e bem posicionada no exterior.
A fonte mais nova que a gente tem hoje deve ter sete ou oito anos. Desde então, praticamente não houve crescimento
— relatou um servidor. Ele atribui esse quadro a decisões tomadas a partir de 2020, quando, segundo ele, houve um corte expressivo no número de fontes ativas da agência.
Você vê notícias dizendo que o Exército americano tem fontes no alto escalão do governo venezuelano. A gente não deve ter hoje nem no baixo escalão
— A situação é descrita como ainda mais delicada no que diz respeito à Venezuela e à América Latina. De acordo com um dos agentes, hoje são raríssimas as fontes bem posicionadas na região. , afirmou.
Na avaliação interna, essa limitação compromete a capacidade de prever movimentos e informar o governo brasileiro com antecedência.
Outro ponto apontado pelos servidores é a ausência de adidos de inteligência em postos estratégicos. A Abin está sem adido na Venezuela há anos, desde o fechamento da embaixada brasileira durante o governo Jair Bolsonaro.
Embora a representação diplomática tenha sido reaberta posteriormente, a função de adidância de inteligência não foi restabelecida. Para os agentes, isso faz falta porque o adido é quem mantém interlocução local, dialoga com serviços de outros países e facilita o acesso a fontes e dados sensíveis.
Sem essa estrutura, relatam os servidores, a atuação da agência fica restrita a informações abertas, análises de imprensa e trocas pontuais com outros serviços. “É trabalhar no escuro”, resumiu um agente. Segundo ele, até é possível produzir análises a partir de cenários, mas é muito difícil chegar à informação mais sensível, aquela que permite antecipar decisões estratégicas de outros países.
O diagnóstico interno sobre a fragilidade atual da Abin também é associado, pelos servidores ouvidos, ao processo de aparelhamento ocorrido durante o governo Jair Bolsonaro.
Segundo eles, a crise estrutural da agência se aprofundou a partir do uso político da inteligência e da chamada operação da “Abin paralela”, atribuída ao então diretor-geral Alexandre Ramagem. O esquema é objeto de denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal, que apura o uso ilegal da agência para fins pessoais e políticos.
Na avaliação desses servidores, o impacto desse período não foi apenas institucional, mas também operacional. Além de desgastar a imagem da Abin, o aparelhamento teria comprometido sua capacidade técnica, afastado profissionais e travado investimentos estruturantes. Para eles, a agência ainda não conseguiu se recompor plenamente desse processo.
O relato também expõe incômodo interno com o avanço da Polícia Federal sobre áreas consideradas típicas da inteligência estratégica. Servidores da Abin questionam a atuação de adidos policiais no exterior como provedores de informações estratégicas ao governo.
Onde está escrito que a PF pode fazer inteligência estratégica? A administração pública só pode fazer o que está na lei
— Para um dos agentes, não há respaldo legal para que a PF atue na antecipação de cenários internacionais. , afirmou.
Quem não tem esse treinamento pode não perceber quando está sendo direcionado ou influenciado
— Segundo esse servidor, a sobreposição de funções cria riscos institucionais e informacionais. Ele relata preocupação com a possibilidade de que informações repassadas por serviços estrangeiros cheguem ao governo brasileiro sem o devido tratamento analítico, técnico e livre de vieses. , afirmou.
Os agentes também demonstram apreensão com o cenário pós-ofensiva na Venezuela. Na leitura interna, ainda há muitas incertezas sobre os desdobramentos regionais. Servidores mencionam o risco de agravamento da crise no país vizinho, impactos migratórios na fronteira brasileira e até uma possível escalada envolvendo outros países da região, como Colômbia e Bolívia. Há também preocupação com o interesse crescente em recursos naturais estratégicos, como gás e terras raras.
É nesse contexto que cresce a apreensão em relação ao processo eleitoral brasileiro. Segundo os relatos, a interferência externa já vinha sendo tratada como uma ameaça pela Abin e foi mencionada no relatório anual de ameaças divulgado pela agência no fim do ano passado.
O documento aponta riscos associados à atuação de agentes estrangeiros e ao papel de grandes plataformas digitais no ambiente informacional, sem citar países específicos.
De acordo com os servidores ouvidos, a ofensiva dos Estados Unidos na Venezuela reforçou esse alerta. Em conversas reservadas, agentes afirmam que há uma preocupação real dentro da agência com a possibilidade de interferência direta dos EUA nas eleições brasileiras.
É quase garantido que vai interferir, nem que seja por desinformação, propaganda ou dinheiro
— disse um dos servidores.
Para essa fonte, esse tipo de atuação já ocorreu em outros países e não haveria razão para o Brasil ser tratado de forma diferente.
Hoje nós não temos um dos pés, que é a inteligência
— Na leitura desses profissionais, o país enfrenta hoje um desequilíbrio no chamado tripé da soberania: diplomacia, defesa e inteligência. Enquanto o Itamaraty ainda preservaria capacidade de atuação institucional, a defesa sofre com limitações orçamentárias e a inteligência com a perda de estrutura, recursos e autonomia. , resumiu um agente.
Essa avaliação é compartilhada pela União dos Profissionais de Inteligência de Estado da ABIN, entidade representativa de servidores da agência, que se manifestou em declaração exclusiva ao ICL Notícias.
os servidores da Abin veem com profunda preocupação a atual situação da Agência para antever e enfrentar os desafios crescentes à soberania brasileira, à autodeterminação dos povos e à paz na América Latina
— Segundo a entidade, .
de mãos atadas, sem condições tecnológicas, orçamentárias e normativas para exercer suas funções essenciais de assessoramento estratégico e proteção nacional
— Na nota, a Intelis afirma que esses desafios atravessam eventos cruciais que se aproximam, como as eleições nacionais de 2026, mas encontram uma Abin .
Segundo a entidade, a combinação de restrições estruturais e instabilidade internacional amplia os riscos para o país em um momento considerado sensível do ponto de vista político e institucional.
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