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Quilombolas enfrentam fogo, seca e agrotóxicos sob ameaça de morte no Maranhão

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 01/12/2025 às 20:46 · Atualizado há 1 dia
Quilombolas enfrentam fogo, seca e agrotóxicos sob ameaça de morte no Maranhão
Foto: Reprodução / Arquivo

Por Geovana Oliveira e Zanone Fraissat

(Folhapress) – Maria Madalena Peres, 75, coletava coco babaçu na mata do quilombo de Cocalinho, em Parnarama (MA), quando percebeu o queima. Ela correu pela estrada de terreno até chegar a sua mansão, no núcleo da comunidade, só para ver que as chamas também já haviam apanhado suas plantações no quintal.

Seu marido, Francisco Araújo, 79, o Nego Boró, tentava apagá-las, mas, a cada tentativa, parecia que elas aumentavam. Ele só desistiu por volta das 13h, quando se viu no meio da produção de capim sequioso, com o vento jogando queima em sua direção. Queimou a roupa e secção do pé enquanto fugia. “Quase morri queimado”, diz.

Incêndio florestal não é uma novidade para o par, mas eles dizem que, nos últimos dois anos, o queima está mais frequente, chegando mais perto das propriedades e se espalhando rapidamente.

Cercada por plantações de soja e milho, que desmataram a espaço virgem ao volta do território, a comunidade lida com as mudanças climáticas. Elas se refletem no aumento da temperatura da região e subtracção da umidade do ar –condições que amplificam o risco de queimadas.

Nego Boró e Maria perderam todas as plantações que serviriam para sua subsistência durante o ano. Mais cedo, já tinham perdido a produção de arroz por falta de chuva. “Apanhei dez sacas de arroz [cerca de 600 kg], sendo que minha roça era para dar 5.000 kg”.

“Um rebento de Deus que está no Mato Grosso mandou eu ir tomar conta da quinta [produção rural] dele, e não deixar os meus morrerem de lazeira”, diz Boró, sobre porquê manteve a subsistência da família, que inclui os dois netos que cria.

Deus aparece frequentemente nas falas do colono para mostrar porquê ele consegue viver em meio às dificuldades. Sobre a rotina, diz: “De manhã, é esse sol quente; de noite, o calor. Mas com fé em Deus, a gente rompe esse tempo”.

Em assuntos porquê as reivindicações de posse do território do quilombo por fazendeiros, ele pede unicamente que Deus o livre, porque na terreno “o que vale é quantia”.

“Se disserem assim: ‘Você não pode permanecer cá’, não vou renhir com ninguém, Deus me livre. Eu procuro outro orientação. E, tô sabendo, são as beiradas de rua, porque nem para o núcleo podemos ir, temos que permanecer no meio das favelas”.

Quando chegou à terreno, há 46 anos, Boró encontrou 11 moradores, todos cearenses da mesma família, que haviam chegado na região em 1916 fugindo da seca. “De hora em hora aparece a notícia que vão tirar [da gente] não sei quantos hectares de terreno, mas eu fico quieto. Não vou questionar, porque não vi ainda questão de pobre com rico ter resultado para o pobre, embora tenha muito recta”, diz.

Francisco Araújo, espargido porquê Nego Boró, teve secção do seu território destruído pelo queima (Foto: Zanone Fraissat / Folhapress)

Quem tenta mostrar um novo resultado a Boró é a neta de um dos seus melhores amigos. Raimunda Nonata da Silva, 37, tem movido todos os meios para prometer que a terreno permaneça com os quilombolas e para melhorar a qualidade de vida no lugar.

Cocalinho foi reconhecido porquê remanescente de quilombo pela Instauração Palmares em 2015 e desde portanto aguarda a demarcação pelo Incra.

Enquanto isso, Nonata, líder da comunidade, denuncia os impactos sofridos pelas 180 famílias devido ao progresso do agronegócio, com desmatamento, pulverização de agrotóxicos e pressão para expulsar o quilombo.

É por esse enfrentamento, diz Nonata, que tem sido ameaçada de morte por fazendeiros e políticos da região. No início deste ano, ela passou a integrar o Programa de Proteção da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos.

Cocalinho está no Matopiba, região de expansão agrícola que, desde os anos 1980, avança sobre o ocluso de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

De vestimenta, em meados dos anos 1980, contam os moradores, grileiros expulsaram povoados vizinhos e iniciaram o desmatamento da região, mas não entraram no quilombo graças à resistência dos mais velhos, que reivindicaram a ocupação histórica do território.

Desde portanto, porém, os quilombolas começaram a viver cercados por fazendas e pela devastação.

Quilombo sitiado

Em 2009, as áreas privadas que os cercam foram vendidas para a Suzano, gigante brasiliano de papel e celulose. Para Nonata, “esse foi o início do termo”. “Por um lado, não teve muita perseguição, mas por outro, secou nossas nascentes e teve muita queimada. Nossos peixes foram desaparecendo”, diz.

À Folha, a Suzano afirma que “o manejo adequado do eucalipto, em conformidade com as melhores práticas ambientais e sob seguimento técnico, não é capaz de secar rios ou nascentes” e que não utiliza queima em nenhuma das suas operações de plantio.

As terras foram vendidas em 2019 aos grandes produtores de soja e milho. “Eles começaram a fazer desmatamento de todas as áreas que a Suzano deixava porquê suplente”, diz Nonata. “Aí piorou a situação, não deixaram mais zero”.

Para chegar a Cocalinho a partir da rodovia é necessário passar por uma estrada de terreno que separa duas fazendas. Dos dois lados é provável ver o que os moradores chamam de descampado –a terreno para a monocultura que, posteriormente a colheita, fica sem qualquer vegetação.

Quando o plantio está sendo feito, porém, a comunidade vê uma chuva de agrotóxicos, pulverizados por aviões. Nonata conta que, uma vez, enquanto passava pelas fazendas de moto para ir a outra comunidade, tomou um banho de pesticida.

“Cheguei cansada, com tosse, tive febre e passei muitos dias com falta de ar”, diz. Segundo ela, o impacto na saúde da comunidade é grande. Moradores relatam prurido, cancro de pele, problemas na visão e doenças respiratórias porquê pneumonia.

João Neres, 60, teme o poder que as fazendas têm sobre a comunidade. “Se quiserem jogar uma rajada de veneno cá, matam nós todos, porquê já estão matando, porque a chuva daqui não vale para ingerir. Bebemos porque, se não, morremos de sede”. Segundo ele, os pesticidas também prejudicam as plantações do quilombo.

Um estudo da Fiocruz realizado em 2022 mostrou que os níveis de atrazina (herbicida usado para controlar ervas daninhas) nas águas de Cocalinho são o triplo do valor sumo permitido no país. O agrotóxico não é permitido na União Europeia.

Preterição estatal

A situação da comunidade foi levada junto a outros 14 casos ao TPP (Tribunal Permanente dos Povos) pela Campanha em Resguardo do Encerrado. Apesar de não proferir sentenças, o TPP pode responsabilizar o Brasil por violações de direitos humanos previstos em tratados internacionais.

O tribunal atribuiu ao Estado e a diferentes órgãos públicos o processo de genocídio dos povos do ocluso, crimes ecológicos e econômicos, e racismo estrutural.

Apesar disso, zero foi feito para melhorar a qualidade de vida da região. Os moradores de Cocalinho afirmam que todos os desmatamentos feitos pelas fazendas são licenciados pela Sema (Secretaria de Estado do Meio Envolvente e Recursos Naturais) e que o governo do Maranhão apoia a devastação para penetrar espaço à soja e ao milho.

Em setembro, uma reportagem da Folha mostrou que o Ibama ofídio R$ 2,6 milhões de uma produtora de soja do governador do estado, Carlos Brandão, que tem três fazendas em Colinas (MA), a 120 km de Parnarama.

À reportagem, o governo do Maranhão afirmou que acompanha desde 2024 o conflito fundiário envolvendo o imóvel rústico denominado “Boca das Tabocas”, em Cocalinho. A Sema diz que todas as autorizações são emitidas de forma transparente, conforme a legislação federalista. Não houve respostas sobre o pedestal do governador ao desmatamento.

Mesmo nesse contexto, dizem os moradores, eles preservam a vegetação nativa que conseguem. Evitam desmatar, plantam sem agrotóxicos, guardam sementes crioulas e tentam impedir que pessoas de fora derrubem madeira e façam caça.

O avô de Nonata, Melcídio José da Silva, 93, nasceu no quilombo e era avezado a caçar guaribas –macaco espargido porquê mono. Depois dos desmatamentos, os animais sumiram, mas há dois anos, posteriormente um incêndio, apareceram na comunidade.

Melcídio pensou em caçar, mas desistiu logo que ouviu o esquina do bicho. Disse ao colega: “Deixa, ela tá é chorando de ver tudo desmatado'”.

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