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Por que uma mulher de 33 anos decidiu retirar as mamas antes de saber se teria câncer

Aos 33 anos, Jéssica Mras retirou as duas mamas mesmo sem ter câncer, após descobrir uma mutação genética associada a alto risco.

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 09/01/2026 às 06:46 · Atualizado há 1 dia
Por que uma mulher de 33 anos decidiu retirar as mamas antes de saber se teria câncer
Foto: Reprodução / Arquivo

Aos 33 anos, Jéssica Mras retirou as duas mamas mesmo sem ter câncer, após descobrir uma mutação genética associada a alto risco.

Casos de câncer de pâncreas e de ovário na família levaram à investigação genética e ao diagnóstico de mutação no gene BRCA2.

A mutação aumenta significativamente o risco de câncer de mama e ovário, mas não torna a doença inevitável.

A mastectomia redutora de risco envolve dor, reconstrução em etapas e impacto físico e emocional.

Mesmo após a cirurgia, o cuidado segue com vigilância médica e decisões futuras, como a retirada preventiva dos ovários e questões ligadas à fertilidade.

A psicóloga Jéssica Mras passou por uma mastectomia bilateral preventiva ao descobrir mutação no gene BRCA2 — Foto: Arquivo Pessoal

Jéssica Mras não tinha diagnóstico de câncer nem alterações em exames quando entrou no centro cirúrgico para retirar as duas mamas. Aos 33 anos, a psicóloga gaúcha decidiu pela mastectomia bilateral após descobrir uma mutação genética no gene BRCA2, associada a um risco elevado de câncer de mama.

A escolha foi feita antes da doença, mas não no vazio. Ela ganhou peso a partir de uma sequência de diagnósticos de câncer na família, acompanhados de perto, e foi construída ao longo de meses de consultas médicas, exames e conversas técnicas sobre risco, prevenção e os limites da cirurgia preventiva.

O primeiro sinal veio anos antes, em 2018, quando a avó de Jéssica morreu em decorrência de câncer de pâncreas. O diagnóstico foi tardio e o desfecho, rápido.

Em 2021, foi a vez de a mãe receber o diagnóstico de câncer de ovário. O tratamento foi longo, difícil, marcado por internações e risco real de morte.

Durante esse processo, o médico responsável pelo caso levantou uma hipótese: aqueles tumores poderiam estar conectados por uma predisposição genética. A mãe de Jéssica foi encaminhada a uma geneticista e fez um mapeamento genético amplo. O resultado confirmou a suspeita: mutação no gene BRCA2.

Com o diagnóstico, veio a orientação automática: familiares de primeiro grau precisavam ser testados. A irmã da mãe testou negativo. Jéssica, positivo.

Não foi um choque. Não me lembro de ter chorado ou ficado desesperada

— conta. “Foi mais uma sensação prática de 'ok, agora preciso decidir o que fazer com essa informação'.”

Os genes BRCA1 e BRCA2 são classificados como genes supressores de tumor. Em condições normais, produzem proteínas fundamentais para reparar danos no DNA e manter a estabilidade genética das células.

Quando esses genes sofrem mutações, esse mecanismo de reparo falha. Com isso, células com erros genéticos passam a se multiplicar com maior facilidade, aumentando o risco de câncer.

Segundo estimativas internacionais, mulheres com mutação no BRCA2 podem ter até 45% de risco de desenvolver câncer de mama ao longo da vida. O risco de câncer de ovário também é maior do que na população geral, embora menor do que no BRCA1. Há, ainda, aumento de risco para tumores como o de pâncreas e, nos homens, de próstata.

Ter a mutação, porém, não significa que o câncer seja inevitável.

A mutação não é uma sentença, mas muda completamente a forma de acompanhar e decidir.

Após o diagnóstico genético, Jéssica foi encaminhada a um centro especializado em mama. Ali, ouviu todas as possibilidades.

Uma delas era a vigilância ativa: exames frequentes, ressonância magnética periódica e acompanhamento rigoroso para detectar qualquer alteração em estágio inicial.

A outra era a mastectomia bilateral redutora de risco — a retirada preventiva de todo o tecido mamário.

A decisão foi amadurecida em meses de consultas, com mastologistas, oncologistas e cirurgião plástico. Jéssica recebeu explicações detalhadas sobre riscos, limites da cirurgia e expectativas realistas.

A mastectomia aconteceu em agosto de 2024. Jéssica optou por preservar os mamilos, uma estratégia considerada segura na maioria das cirurgias redutoras de risco, desde que não haja doença próxima à região.

Eu dependia de ajuda para tudo. Não conseguia sentar sozinha, levantar o braço, tomar banho

— relata. “Qualquer movimento causava dor.”

Ao se ver pela primeira vez no espelho, o impacto foi imediato: um tórax plano, cicatrizes extensas e um corpo irreconhecível.

Mesmo sabendo como iria ficar, assusta. Dá medo. Me perguntava se tinha feito a coisa certa.

A reconstrução não foi imediata. Primeiro, ela teve de inserir expansores no tórax — dispositivos colocados sob o músculo para preparar gradualmente a pele para as próteses de silicone definitivas. Foram meses de espera, desconforto e insegurança com a própria imagem.

As mamas retiradas foram enviadas para análise anatomopatológica. Dias depois, os médicos chamaram Jéssica para conversar.

O laudo mostrou formação de células atípicas, um estágio considerado pré-cancerígeno.

O achado não transformou a experiência em algo simples ou leve, conta Jéssica, mas deu outra dimensão à decisão.

Como a mutação no BRCA2 também aumenta o risco de câncer de ovário, a retirada preventiva dos ovários é uma decisão ainda mais complexa. O procedimento induz menopausa precoce e pode impactar fertilidade, saúde óssea e cardiovascular.

No caso de Jéssica, os médicos estabeleceram um prazo: a cirurgia pode ser considerada cerca de dez anos antes da idade em que a mãe teve o câncer. Como a mãe descobriu a doença aos 55, Jéssica pode esperar até os 45 anos para retirar os ovários. Até lá, o foco é o acompanhamento rigoroso.

A maternidade se tornou outro dilema. Existe 50% de chance de transmissão da mutação para os filhos.

Às vezes penso se quero colocar alguém no mundo para passar por tudo isso

— admite.

Há alternativas, como o congelamento de óvulos e o diagnóstico genético pré-implantacional, que permite selecionar embriões sem a mutação —uma possibilidade já disponível no Brasil, mas que envolve custos e decisões éticas.

Histórias como a de Jéssica ganharam visibilidade após o relato público da atriz Angelina Jolie, que também retirou as mamas após descobrir uma mutação no BRCA. Desde então, mais mulheres passaram a buscar informação e aconselhamento genético.

No caso de Jéssica, a cirurgia reduziu de forma expressiva o risco de câncer de mama, mas não encerrou o acompanhamento médico.

Como outras pessoas com mutações nos genes BRCA, ela seguirá em vigilância contínua e com decisões médicas que se estendem ao longo da vida, incluindo o momento de discutir a retirada preventiva dos ovários e questões relacionadas à fertilidade.

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