Aos 33 anos, Jéssica Mras retirou as duas mamas mesmo sem ter câncer, após descobrir uma mutação genética associada a alto risco.
Casos de câncer de pâncreas e de ovário na família levaram à investigação genética e ao diagnóstico de mutação no gene BRCA2.
A mutação aumenta significativamente o risco de câncer de mama e ovário, mas não torna a doença inevitável.
A mastectomia redutora de risco envolve dor, reconstrução em etapas e impacto físico e emocional.
Mesmo após a cirurgia, o cuidado segue com vigilância médica e decisões futuras, como a retirada preventiva dos ovários e questões ligadas à fertilidade.
A psicóloga Jéssica Mras passou por uma mastectomia bilateral preventiva ao descobrir mutação no gene BRCA2 — Foto: Arquivo Pessoal
Jéssica Mras não tinha diagnóstico de câncer nem alterações em exames quando entrou no centro cirúrgico para retirar as duas mamas. Aos 33 anos, a psicóloga gaúcha decidiu pela mastectomia bilateral após descobrir uma mutação genética no gene BRCA2, associada a um risco elevado de câncer de mama.
A escolha foi feita antes da doença, mas não no vazio. Ela ganhou peso a partir de uma sequência de diagnósticos de câncer na família, acompanhados de perto, e foi construída ao longo de meses de consultas médicas, exames e conversas técnicas sobre risco, prevenção e os limites da cirurgia preventiva.
O primeiro sinal veio anos antes, em 2018, quando a avó de Jéssica morreu em decorrência de câncer de pâncreas. O diagnóstico foi tardio e o desfecho, rápido.
Em 2021, foi a vez de a mãe receber o diagnóstico de câncer de ovário. O tratamento foi longo, difícil, marcado por internações e risco real de morte.
Durante esse processo, o médico responsável pelo caso levantou uma hipótese: aqueles tumores poderiam estar conectados por uma predisposição genética. A mãe de Jéssica foi encaminhada a uma geneticista e fez um mapeamento genético amplo. O resultado confirmou a suspeita: mutação no gene BRCA2.
Com o diagnóstico, veio a orientação automática: familiares de primeiro grau precisavam ser testados. A irmã da mãe testou negativo. Jéssica, positivo.
Não foi um choque. Não me lembro de ter chorado ou ficado desesperada
— conta. “Foi mais uma sensação prática de 'ok, agora preciso decidir o que fazer com essa informação'.”
Os genes BRCA1 e BRCA2 são classificados como genes supressores de tumor. Em condições normais, produzem proteínas fundamentais para reparar danos no DNA e manter a estabilidade genética das células.
Quando esses genes sofrem mutações, esse mecanismo de reparo falha. Com isso, células com erros genéticos passam a se multiplicar com maior facilidade, aumentando o risco de câncer.
Segundo estimativas internacionais, mulheres com mutação no BRCA2 podem ter até 45% de risco de desenvolver câncer de mama ao longo da vida. O risco de câncer de ovário também é maior do que na população geral, embora menor do que no BRCA1. Há, ainda, aumento de risco para tumores como o de pâncreas e, nos homens, de próstata.
Ter a mutação, porém, não significa que o câncer seja inevitável.
A mutação não é uma sentença, mas muda completamente a forma de acompanhar e decidir.
Após o diagnóstico genético, Jéssica foi encaminhada a um centro especializado em mama. Ali, ouviu todas as possibilidades.
Uma delas era a vigilância ativa: exames frequentes, ressonância magnética periódica e acompanhamento rigoroso para detectar qualquer alteração em estágio inicial.
A outra era a mastectomia bilateral redutora de risco — a retirada preventiva de todo o tecido mamário.
A decisão foi amadurecida em meses de consultas, com mastologistas, oncologistas e cirurgião plástico. Jéssica recebeu explicações detalhadas sobre riscos, limites da cirurgia e expectativas realistas.
A mastectomia aconteceu em agosto de 2024. Jéssica optou por preservar os mamilos, uma estratégia considerada segura na maioria das cirurgias redutoras de risco, desde que não haja doença próxima à região.
Eu dependia de ajuda para tudo. Não conseguia sentar sozinha, levantar o braço, tomar banho
— relata. “Qualquer movimento causava dor.”
Ao se ver pela primeira vez no espelho, o impacto foi imediato: um tórax plano, cicatrizes extensas e um corpo irreconhecível.
Mesmo sabendo como iria ficar, assusta. Dá medo. Me perguntava se tinha feito a coisa certa.
A reconstrução não foi imediata. Primeiro, ela teve de inserir expansores no tórax — dispositivos colocados sob o músculo para preparar gradualmente a pele para as próteses de silicone definitivas. Foram meses de espera, desconforto e insegurança com a própria imagem.
As mamas retiradas foram enviadas para análise anatomopatológica. Dias depois, os médicos chamaram Jéssica para conversar.
O laudo mostrou formação de células atípicas, um estágio considerado pré-cancerígeno.
O achado não transformou a experiência em algo simples ou leve, conta Jéssica, mas deu outra dimensão à decisão.
Como a mutação no BRCA2 também aumenta o risco de câncer de ovário, a retirada preventiva dos ovários é uma decisão ainda mais complexa. O procedimento induz menopausa precoce e pode impactar fertilidade, saúde óssea e cardiovascular.
No caso de Jéssica, os médicos estabeleceram um prazo: a cirurgia pode ser considerada cerca de dez anos antes da idade em que a mãe teve o câncer. Como a mãe descobriu a doença aos 55, Jéssica pode esperar até os 45 anos para retirar os ovários. Até lá, o foco é o acompanhamento rigoroso.
A maternidade se tornou outro dilema. Existe 50% de chance de transmissão da mutação para os filhos.
Às vezes penso se quero colocar alguém no mundo para passar por tudo isso
— admite.
Há alternativas, como o congelamento de óvulos e o diagnóstico genético pré-implantacional, que permite selecionar embriões sem a mutação —uma possibilidade já disponível no Brasil, mas que envolve custos e decisões éticas.
Histórias como a de Jéssica ganharam visibilidade após o relato público da atriz Angelina Jolie, que também retirou as mamas após descobrir uma mutação no BRCA. Desde então, mais mulheres passaram a buscar informação e aconselhamento genético.
No caso de Jéssica, a cirurgia reduziu de forma expressiva o risco de câncer de mama, mas não encerrou o acompanhamento médico.
Como outras pessoas com mutações nos genes BRCA, ela seguirá em vigilância contínua e com decisões médicas que se estendem ao longo da vida, incluindo o momento de discutir a retirada preventiva dos ovários e questões relacionadas à fertilidade.
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