
A economia dos Estados Unidos vai bem, mas os americanos vão mal. Joe Biden está prometendo tudo o que tem na lista para “segurar” a retaliação de Israel ao Irã – e impedir o petróleo a mais de cem dólares que derrubaria as chances de Kamala Harris. Até o quase inacreditável retorno acoplado do propulsor do foguete da SpaceX funcionou contra: apesar da torcida para dar errado, Elon Musk comemorou um feito sem precedentes – e, por extensão, Donald Trump, no mundo de alucinada politização de tudo em que vivemos hoje.
Outro exemplo de politização insuportável: teve quem torcesse para que o furação Milton estilhaçasse a Flórida inteira – expondo seu governador republicano, Ron DeSantis, e, por extensão, Trump – e quem fizesse o mesmo para comprovar a ineficiência do governo federal na ajuda aos desabrigados.
São alguns fatos que ajudam a entender o contexto político altamente convulsionado, além de imprevisível, a apenas vinte dias da eleição.
Por isso, é preciso muito cuidado. Os mesmos dados podem ser utilizados para confirmar uma trajetória de Kamala Harris rumo à vitória em 5 de novembro e também para comprovar uma recuperação de Trump – num momento em que não há mais muito tempo para que as tendências se invertam.
CINCO PONTOS PERDIDOS
No desespero, apelamos a múltiplas pesquisas, sempre com a ressalva de que numa eleição tão apertada assim, o potencial de erro aumenta.
Disse Steve Kornacki, analista da NBC: há apenas um mês, Kamala estava à frente de Trump na contagem geral das preferências dos eleitores e também no índice de favorabilidade. Tinha 48% de visões positivas, contra 45% de negativas. Agora, está 43% a 49%. No cômputo geral, também recuou cinco pontos e hoje ela e Trump estão empatados exatamente com 48%.
Perder cinco pontos a essa altura tem um tremendo impacto.
Outra abordagem: na mais recente pesquisa da Economist, Kamala aparece com 276 votos eleitorais e Trump com 262. O número mágico é 270. Os dois têm exatamente 50% de chance de ser eleitos. Numa avaliação de Bret Baier na Fox News, Trump pode levar cinco estados pêndulo (Arizona, Geórgia, Carolina do Norte, Michigan e até o mais apertado de todos, Pensilvânia). Seria eleito presidente com 296 votos eleitorais, contra 242.
Por que isso está acontecendo?
Talvez os eleitores estejam conhecendo mais a candidata, que saiu do cargo obrigatoriamente apagado de vice-presidente para ser exposta às atenções constantes do país inteiro. E nem sempre se saiu bem. Tendo dado uma série de entrevistas a jornalistas e apresentadores amigos, persistiu na ausência flagrante de propostas.
ESCONDENDO O JOGO
Quando perguntada amavelmente, no programa matutino comandado por Whoopi Goldberg, o que faria diferente de Joe Biden, respondeu que nada lhe vinha à cabeça. É claro que não poderia desautorizar o presidente, a quem deve ter sido escolhida candidata sem passar pelo voto direto nas eleições primárias, mas a resposta vazia expôs duas alternativas.
Primeira: realmente, não tem nada a oferecer de diferente que a qualifique como “candidata da mudança”, a posição mais desejada pelos marqueteiros, de qualquer partido, considerando-se que o eleitorado no mundo inteiro anda querendo novas alternativas – e que Joe Biden tem uma avaliação altamente negativa.
Segunda: escamoteia o que verdadeiramente pensa para não “assustar os cavalos”, expressão da língua inglesa equivalente a agitar as águas ou botar fogo no circo. O uso da voz passiva e da forma indireta denota em Kamala que ela esconde o jogo. Até o próprio pai dela, o economista de esquerda Donald Harris, está sendo escamoteado.
Algumas vezes, para não parecer tão progressista quanto comprova sua atuação como senadora, escorrega para o ridículo, como ao dizer que tem uma Glock em casa (pior ainda foi seu candidato a vice, Tim Waltz, que para agradar o eleitorado mais arredio, formado por homens brancos com tendência mais conservadora, apareceu num vídeo atirando em faisões com a arma em posição errada).
JAQUETA DIOR
A falta de convicção fica patente em declarações do tipo: “Acho que é muito importante para todos, a todos os momentos no tempo, e certamente no atual, ver o momento no tempo no qual existimos e estamos presentes, e ser capazes de contextualizar isso, entender onde existimos na história e no momento à medida em que ele se relaciona não apenas com o passado, mas com o futuro”.
Não tem jaqueta Dior, como a que ela usou no debate triunfante com Trump (cinco mil dólares, idêntica a um modelo muito usado por Melania), que dê jeito.
Enquanto isso, o preço dos ovos subiu 28% em um ano. O aumento dos alimentos é o problema número um apontado pelos americanos.
Em vários sentidos, Kamala Harris é uma candidata dos sonhos dos marqueteiros. Aparência e currículo sensacionais, o efeito alívio desfrutado depois da desistência de Joe Biden, a capacidade de apelar ao eleitorado negro e outras minorias, sem nunca na verdade ter levado uma vida identificada com eles, tendo um “comportamento branco” que a aproxima da maioria do país.
Kamala também enfrenta um candidato com uma tremenda capacidade de sabotar a si mesmo. Numa eleição em que é acusado de colocar em risco a democracia, disse em entrevista à Fox que o grande problema “é o inimigo interno”.
ATÉ TAYLOR SWIFT
“Temos gente realmente ruim. Temos gente maluca, lunáticos de esquerda. E isso deveria ser tratado facilmente pela Guarda Nacional ou, se for realmente necessário, pelos militares”.
Pronto: falar em chamar as Forças Armadas para fazer uma coisa que são proibidas, como interferir em desordens e assuntos internos, é um presente amarrado com laço de fita para Kamala.
A candidata democrata tem um bilhão de dólares para gastar, PIB crescendo 3% no último trimestre, bolsa batendo um recorde atrás do outro, o apoio maciço dos meios de comunicação, da esfera acadêmica, do mundo artístico e até de Taylor Swift. Além de vários republicanos tradicionais que consideram Trump um perigo. Na média das pesquisas do RealClearPolitics, há semanas tem a primeira posição – atualmente, 48,7% contra 47,2% para Trump.
Deveria estar eleita. Por que não está?
“É isso que me pergunto todas as manhãs”, responde seu perfeito clone no humorístico Saturday Night Live, a atriz Maya Rudolph, terminando com uma risada desproporcional característica.
Como essa campanha já teve reviravoltas inacreditáveis, continuamos sem cravar quem estará dando risada em 6 de novembro.
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