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Podcast 'Caso Herzog' lança episódios inéditos sobre luta por punição aos torturadores

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 10/12/2025 às 18:42 · Atualizado há 1 dia
Podcast 'Caso Herzog' lança episódios inéditos sobre luta por punição aos torturadores
Foto: Reprodução / Arquivo

“Mataram o Vlado!” À medida que a repressão se esforçava para partilhar a versão solene de que Vladimir Herzog havia cometido suicídio em seguida prestar prova à polícia política, a reação àquela farsa cresceu de forma exponencial. Colegas, amigos, alunos, familiares e todos os brasileiros minimamente informados sobre a escalada de violência e terror que havia se alastrado pelas forças de segurança ao longo de uma dezena não hesitaram em concluir que aquela morte não tinha zero de suicídio. Herzog havia sido torturado até a morte no do DOI-Codi de São Paulo, o endereço mais truculento da ditadura.

Diretor de jornalismo da TV Cultura, Vlado havia se apresentado voluntariamente para prestar prova pouco depois das 8h naquela manhã de sábado, 25 de outubro de 1975. Às 17h, já estava morto. Horas depois, na esperança de driblar a responsabilidade por aquela morte, os agentes penduraram o corpo do jornalista pelo pescoço numa grade da janela e mandaram buscar um fotógrafo judiciario para registrar o álibi. O tiro saiu pela culatra. Na cena fraudada, Vlado aparece com as pernas dobradas e os pés arrastando no solo, alçado numa grade mais baixa do que ele e sustentado por um suposto cinto de tecido que integraria os uniformes dos presos – um cinto que nenhum recluso usava.

Essa segmento da história está contada no primeiro incidente da série Caso Herzog, publicado em outubro. Nele, o ouvinte pôde saber o responsável da foto fake e ouvir relatos de quem esteve recluso junto com Vlado naquele dia – os jornalistas Rodolfo Konder e George Duque Estrada chegaram a ouvir seus gritos da quartinho vizinha, Sérgio Gomes foi barbarizado pelo mesmo torturador, Paulo Markun tentou avisá-lo do risco que corria com uma semana de antecedência. O primeiro incidente também evidenciou a campanha de ódio movida contra Herzog e o jornalismo da TV Cultura por segmento da prensa adesista e dois deputados estaduais da direita hidrofóbica da era – Wadih Helu e José Maria Marin “pediram a cabeça” do Vlado em discursos na tribuna.

Agora, os três novos episódios trazem o desenrolar desse novelo, do literato ecumênico que atraiu 8 milénio pessoas na Catedral da Sé, sob a liderança do rabino Henry Sobel e do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, ao manifesto “Em nome da verdade”, assinado por 1.004 jornalistas em repúdio à versão solene. Mas não só. Pela primeira vez, uma produção jornalística audiovisual reconstitui, de ponta a ponta, toda a jornada percorrida por Clarice Herzog em procura de justiça: cinquenta anos de enfrentamento à impunidade e esperança na democracia.

Foi justamente uma ação movida por Clarice no início de 1976 que inaugurou um novo capítulo na responsabilização do regime militar por um delito de violência de Estado. Depois dois anos de tramitação, resultou na primeira pena da União por um delito praticado na ditadura. No caso, uma ação declaratória que responsabilizou o Estado pela morte do jornalista, em outubro de 1978.

As primeiras representações do Ministério Público na dimensão penal vieram em seguida, buscando investigar e punir os autores da tortura que o matou, em privativo o policial Pedro Antônio Mira Grancieri, vulgo Capitão Ramiro, o varão que interrogou Herzog até a morte – e, anos depois, daria entrevista e teria seu rosto gravado na cobertura de uma revista semanal. Tudo isso está descrito em detalhes em Caso Herzog, muito uma vez que a pena do Brasil pela Incisão Interamericana dos Direitos Humanos, em 2018, e a reparação a Clarice, em 2025.

O podcast Caso Herzog é coordenado e narrado pelo jornalista e jornalista Camilo Vannuchi, responsável de outras três séries ambientadas na ditadura: Vala de Perus, Eu só disse meu nome e Nunca mais, esta última distribuída pelo ICL entre julho e agosto deste ano. Os roteiros foram escritos por Camilo Vannuchi e Pedro Belo e a reportagem foi feita pelos dois, juntamente com Antônio Farinaci, diretor do documentário Herzog: o delito que abalou a ditadura, lançado em outubro pelo ICL. Segmento das entrevistas e da narração foi gravada nos estúdios do conduto, em São Paulo.

“Oriente podcast, agora completo, vem suprir uma vácuo que faltava na memória desse capítulo intolerável da história recente do Brasil: o registro da luta dos familiares de Herzog na Justiça”, diz Vannuchi. “A partir da iniciativa corajosa de Clarice, associada à ação muito séria de advogados uma vez que Samuel Mac Dowell e Marco Antônio Barbosa, juízes uma vez que Marcio José de Moraes e os procuradores da República Marlon Weichert e Eugênia Gonzaga, temos agora a oportunidade de saber – e reconhecer – a audácia de quem fez o que precisava ser feito na resguardo dos direitos humanos e da democracia.”

Ainda segundo o narrador e roteirista, essa coragem não está circunscrita somente aos anos 1970 nem foi superada. “A impunidade perdura até hoje, não somente para os assassinos de Herzog, mas também para quem matou Rubens Paiva, Leal Fruto, Stuart Angel, Honestino Guimarães, Heleny Guariba e tantos outros”, diz Vannuchi. “Hoje, uma das formas de lutar por justiça é ter a perspicuidade de que a Lei da Anistia não pode ser travanca para que autores de crimes contra a humanidade paguem pelo que fizeram.”

O Caso Herzog está disponível gratuitamente nos canais ICL, ICL Notícias e Eduardo Moreira a partir desta quarta-feira, 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

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