Resposta a Eduardo Affonso, e suas boas intenções
Eduardo Affonso, em artigo publicado no jornal O Globo, “As Melhores Intenções” (08/03/2025), tece críticas a certo aspectos do filme Ainda Estou Aqui. Embora reconheça suas qualidades técnicas, questiona determinadas visões sobre seu conteúdo, alegando um didatismo ideológico. Discordo dessa visão.
Como professor de História, vejo a arte como uma manifestação humana essencial. Não apenas emociona, mas educa, provoca reflexões e desafia narrativas oficiais. No caso do cinema, sua potência reside justamente na capacidade de transformar eventos históricos em experiências sensoriais e cognitivas.
Arte pela Arte? Não, Arte pela Humanidade
Affonso parece sugerir que a Crítica acerca de um filme como Ainda Estou Aqui deveria se ater apenas à estética, sem se comprometer com uma alegada mensagem. Esse é um argumento antigo, que remonta ao conceito de l’art pour l’art (arte pela arte).
No entanto, grandes teóricos da Estética, como John Dewey e Jacques Rancière, defendem que a arte é, antes de tudo, uma forma de conhecimento. Ela não existe isolada, mas interage com seu tempo e contexto, influenciando e sendo influenciada por ele.
A ideia de que o cinema deve evitar tomar partido ignora sua função social. Obras como A Lista de Schindler, Terra em Transe ou Que Horas Ela Volta? não são apenas filmes bem-feitos — são denúncias, retratos de épocas e instrumentos de memória coletiva.
A Ditadura Não é Ficção
O incômodo de Affonso com a abordagem do filme sobre a ditadura militar revela algo maior: o persistente esforço de setores da sociedade em suavizar o passado. O regime de 1964 torturou, matou e fez desaparecer opositores. Isso não é interpretação, é fato.
Ao retratar a dor de uma família dilacerada pelo Estado, Ainda Estou Aqui não exagera e nem doutrina. Apenas recorda. Ignorar essa função da arte é negligenciar seu papel na construção da consciência histórica. Como professor, ensino aos meus alunos que a memória coletiva é um dos pilares da democracia.
Cinema: Entre a Estética e a Ética
A liberdade da arte não pode ser refém de uma suposta neutralidade. O próprio Theodor Adorno alertava que a cultura, mesmo em sua forma mais refinada, carrega um sentido político. O cinema, sendo uma linguagem popular e acessível, amplia esse impacto.
Não existe arte sem contexto. Affonso pode elogiar a fotografia e as atuações, mas ao criticar as leituras políticas de seu roteiro, ignora que o cinema também é discurso. Filmes são mais do que imagens em movimento — são interpretações do mundo.
A Realidade Histórica Não é Uma “Cartilha”
Affonso acusa muitos dos entusiasmados com o filme de serem maniqueístas. Mas como evitar isso quando falamos de uma ditadura que assassinou civis? Não há neutralidade possível entre a vítima e o algoz, entre o torturado e o torturador.
Chamar isso de “cartilha” ou “catequese” é deslegitimar a dor de milhares de famílias que, como a de Rubens Paiva, nunca receberam justiça. Se contar essa história é incômodo, talvez o problema não esteja no filme, mas na recusa em encarar o passado.
A Arte Como Resistência
Affonso, ao final do artigo, cita o Apocalypse Now. Curioso, pois este filme é uma denúncia da brutalidade da guerra. É um exemplo de como a arte pode ser crítica e ainda assim brilhante. (E nem vou mencionar que no ultimo parágrafo Affonso cita Chico Buarque).
O problema não é a intenção de um suposto “cinema doutrinador”, mas o incômodo que certas verdades podem provocar. Se Ainda Estou Aqui recebe prêmios, não é só porque teve direção, produção e atuações talentosas, mas igualmente, talvez, porque nos lembra de algo essencial: há feridas históricas que não podem ser esquecidas.