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O sistema de devolução de valores fraudados via Pix ainda enfrenta grande dificuldade para reverter os prejuízos causados aos brasileiros. De acordo com dados do Banco Central, apenas R$ 459 milhões — menos de 7% — dos R$ 6,98 bilhões desviados em transferências suspeitas foram recuperados desde a criação do Mecanismo Especial de Devolução (MED), que recebeu mais de 5 milhões de pedidos. Destes, apenas 31% foram aceitos.
A principal limitação do modelo atual está no rastreamento: o MED consegue acompanhar apenas a primeira conta que recebeu os valores. Como os golpistas costumam pulverizar rapidamente o dinheiro em várias contas laranjas, rastrear o percurso completo se torna um desafio técnico.
Para enfrentar essa fragilidade, o BC trabalha na implementação do MED 2.0, com previsão de lançamento no primeiro trimestre de 2026. A nova versão permitirá acompanhar até cinco níveis de transferências e rastrear o dinheiro mesmo quando ele for dividido entre várias contas. A expectativa é de que a taxa de pedidos aceitos suba para até 80%, segundo estudos compartilhados pelo BC com o setor.
Um relatório da ACI Worldwide, companhia dos Estados Unidos que desenvolve serviços de tecnologia com meios de pagamentos, divulgado no começo do ano, apontou que os golpes financeiros envolvendo o Pix devem quintuplicar nos próximos três anos e ultrapassar os R$ 11 bilhões em perdas.
Segundo o relatório, o Brasil ocupa a liderança global de golpes envolvendo pagamentos digitais. O país vai concentrar 25% de todo o volume de golpes digitais aplicados em seis países analisados no estudo até 2028.
BC acelera digitalização total envolvendo o Pix
Enquanto isso, a autoridade monetária acelera outra frente: a digitalização total do processo. Até outubro deste ano, os bancos deverão oferecer contestação de Pix diretamente por seus aplicativos, sem a necessidade de interação humana com o atendimento. A mudança visa tornar o processo mais ágil e acessível, reduzindo o tempo entre a contestação e o eventual bloqueio de valores.
Entre os bancos, o Bradesco já implementou a funcionalidade: ao acessar o extrato e clicar na transação contestada, o cliente pode informar o motivo da contestação, que será avaliado pelo banco.
Além da devolução em si, o novo sistema também fortalece a identificação de contas usadas por golpistas. A ferramenta “fraud marker”, já utilizada por instituições financeiras, permite marcar contas envolvidas em crimes, aumentando a capacidade do sistema de combater fraudes estruturadas.
Parte do dinheiro irrecuperável
Apesar dos avanços, especialistas apontam que parte do dinheiro continuará irrecuperável, especialmente quando os valores forem convertidos rapidamente em criptomoedas ou transferidos para plataformas externas.
Diferentemente das compras com cartão de crédito — onde o arrependimento do consumidor pode justificar o cancelamento —, o MED é restrito a fraudes comprovadas ou falhas técnicas da instituição. A ampliação das hipóteses, como ocorre nas bandeiras Visa e Mastercard, ainda não faz parte do escopo do Pix.
Para os usuários que foram vítimas de golpe, o processo de contestação exige o preenchimento de dados específicos, como o tipo de crime sofrido e um relato descritivo. Se aceito, o ressarcimento pode ocorrer em até 11 dias.
Enquanto os mecanismos evoluem, a recomendação continua sendo a prevenção: atenção redobrada em transações e cuidado com tentativas de engenharia social permanecem como a melhor proteção contra fraudes digitais.