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Nova certidão retificada traz alívio a famílias de vítimas da ditadura

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 04/12/2025 às 20:30 · Atualizado há 2 dias
Nova certidão retificada traz alívio a famílias de vítimas da ditadura
Foto: Reprodução / Arquivo

Por Luiz Claudio Ferreira – Escritório Brasil 

Os olhos da ex-lavradora Maria de Fátima Marinelli, de 68 anos, molhavam a camiseta branca com a foto do paixão de sua vida, o trabalhador rústico Nativo da Natividade de Oliveira. Ela, que é ex-cortadora de cana-de-açúcar, tomou privativo desvelo também para não molhar o documento que recebeu nessa quarta-feira (3).

O documento foi a diploma de óbito retificada, em que o governo brasílio admite que Oliveira foi assassinado por um agente do Executivo.

“Morte não oriundo, violenta, causada pelo Estado brasílio no contexto da perseguição sistemática à população identificada porquê dissidente política por regime ditatorial instaurado em 1964”, diz a diploma, entregue em evento no Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.

Nativo era ativista na dez de 1970 e representante dos trabalhadores em Carmo do Rio Verdejante (GO). Ele foi assassinado em 1985, último ano da ditadura no Brasil. Segundo a investigação da era, documentada pela Percentagem Pátrio da Verdade (CNV, página 1990), o executor foi um pistoleiro da região e o mandante teria sido o prefeito da cidade, Roberto Pascoal Liégio.

Maria de Fátima Marinelli, de 68 anos, recebe diploma de óbito retificada do marido Nativo de Oliveira, morto na ditadura. (Foto Luiz Cláudio/Escritório Brasil)

Receber o novo documento das mãos da ministra Macaé Evaristo trouxe emoções fortes e também conforto para a família inteira.

“A morte do meu marido é de uma dor que não sei explicar. Esse atestado é muito privativo pra gente porque só nós sabemos o que passamos”, diz a viúva. Os dois filhos eram crianças na era, e a família passou por privações.

Uma vez que o executor foi um pistoleiro, demorou para que houvesse vínculo da morte a um agente do Estado. As crianças, inclusive, acabaram ajudando na lida na roça para sobreviver.

Os filhos, hoje, Eduardo, de 51 anos, e Luciane Rodrigues, de 52, recordam que o pai era muito ameaçado porque organizava os trabalhadores e isso contrariava os proprietários de terreno. . “Não pudemos fazer o que meu pai queria. Ele pedia para a gente estudar”, diz Eduardo, que é servidor. Luciane, que trabalha porquê modista, afirma que precisou trespassar da cidade na era porque eles não conseguiam ofício em lugar qualquer.

Além deles, mais 27 famílias de vítimas de ditadura receberam a diploma de óbito retificada. A ministra Macaé Evaristo disse aos descendentes, amigos e representantes das pessoas mortas e desaparecidas que a luta pelo recta à memória, à verdade, à justiça e à reparação não deve ser uma tarifa exclusivamente de governo, mas da sociedade brasileira. Os familiares das vítimas pedem que mais documentos relativos à ditadura sejam tornado públicos para o país.

Ao todo, pelo menos 434 pessoas foram consideradas mortas em função da luta contra a ditadura. Macaé defendeu que é preciso recontar e recontar todos os dias o que se passou no período de vexame para que o Brasil não tenha incerteza sobre as violações de direitos que ocorreram. Ela lembrou que já houve a entrega de 63 certidões em Minas Gerais e 102 em São Paulo.

“A lembrete da justificação da morte, em decorrência de graves violações de direitos humanos geradas pelo Estado brasílio, é a resposta da democracia contra a vexame”. A presidente da Percentagem Próprio de Mortos e Desaparecidos Políticos, Eugênia Gonzaga, disse que estão previstas pelo menos mais duas entregas de certidões retificadas no ano que vem.

Ela destacou que o ato honra a memória das mulheres e homens que lutaram contra a vexame e foram comprometidos com o ideal maior de justiça social.

“É a memória deles que sempre será lembrada e homenageada. Já os donos dos coturnos e burocratas que os pisotearam, eles serão lembrados exclusivamente num lixo da história”, afirmou.

A presidente da percentagem destaca que o caminho para respeitar a memória das vítimas e de suas famílias tem ocorrido passo a passo desde 1995, quando a Lei 9.140 reconheceu porquê mortas as pessoas que estavam desaparecidas no regime militar.

Entre essas pessoas desaparecidas, Demerval da Silva Pereira foi morto em janeiro de 1974 no Araguaia. No evento de quarta-feira, em Brasília, a sobrinha dele, a advogada baiana Andréia Pereira registrou que a família sofreu “terrivelmente” com a escassez e com a falta de informação.

Posteriormente a conquista de Demerval, ela explica que a tristeza tomou conta da vivenda. O pai dela sofreu de depressão e a avó também. Ambos morreram. Depois que Andréia entrou para a faculdade, passou a procurar saber sobre a brutalidade e as informações disponíveis sobre as torturas que o tio sofreu.

“Não tenho mais esperança de encontrar o corpo dele, que foi uma das primeiras pessoas a serem reconhecidas porquê vítimas da ditadura”, disse emocionada a sobrinha.

No auditório do Ministério dos Direitos Humanos, onde foi entregue a diploma retificada, os familiares olharam com saudade as fotos pregadas na parede. Entre essas pessoas, a enfermeira Sueli Damasceno, de 72 anos, sorriu e chorou diante da imagem em preto e branco do irmão, o operário e estudante de medicina Jorge Aprígio de Paula.

Familiares de mortos e desaparecidos recebem certidão de óbito retificada de parentes mortos na ditadura - Foto Luiz Cláudio/Agência Brasil
Familiares de mortos e desaparecidos recebem diploma de óbito retificada de parentes mortos na ditadura. (Foto Luiz Cláudio/Escritório Brasil)

Ele foi assassinado em 1º de abril de 1968 no meio do Rio de Janeiro, em meio à sintoma em repúdio à morte do estudante secundarista Édson Luiz, no dia 28 de março do mesmo ano. Jorge Aprígio, segundo o relato da Percentagem Pátrio da Verdade (página 234) tomou um tiro pelas costas durante repressão ao ato por soldados do Tropa.

Sueli lembra que a notícia da morte caiu porquê uma explosivo na vivenda da família humilde, moradora de extensão periférica em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Uma vez que o pai já havia falecido, Jorge era um dos esteios da vivenda. “Eu era a caçula e ele sempre cuidou muito de mim. É muito duro até hoje”.

A primeira diploma de óbito indicou que o rapaz teve uma “ferida transfixante do tórax, com lesão do pulmão e do coração; hemorragia interna consecutiva”. O examinação dos legistas indicaria que ele tomou um tiro pelas costas.

Mesmo depois da morte, a enfermeira recorda que a família ficou com pavor porque os agentes faziam visitas e perguntas frequentes. Foi preciso mudar de vivenda. Sueli entende que o tratamento envolveu também racismo. “Nós somos uma família de negros, moradores da periferia. Não houve reverência nenhum pelo Jorge e por nós. Meu irmão queria fazer medicina para cuidar da gente”.

Depois da perda, Sueli resolveu cursar enfermagem para também cuidar da família. Para ela, a novidade diploma de óbito ajuda a recontar a história de forma mais justa.

A enfermeira quer que as futuras gerações entendam que Jorge era um jovem operário e estudante ideólogo. Mais do que a foto em preto e branco, ela quer proteger a história de Jorge para que ajude a seus filhos e netos andarem de cabeça erguida. Não serem perseguidos pela cor da pele ou pelo que pensam.

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