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“Uma classe oligárquica emergente, composta por barões da tecnologia, elites industriais e aristocratas tradicionais, está financiando um vasto projeto de engenharia social. Eles buscam não apenas consolidar sua influência, mas desfazer décadas de progresso social percebido como uma ameaça”.
É o que revela o estudo The Next Wave: How Religious Extremism Is Reclaiming Power (A próxima onda: como o extremismo religioso está recuperando o poder em tradução livre) coordenado por Neil Datta, Diretor Executivo do Fórum Parlamentar Europeu para os Direitos Sexuais e Reprodutivos e lançado em junho deste ano.
“Seus métodos são sutis e devastadores: eles estão transformando uma agenda extremista religiosa em uma linguagem secularizada e higienizada de tradição, família e ordem — tornando-a palatável na política mainstream, enquanto preservam seus objetivos reacionários centrais”.
O relatório aponta que entre 2019 e 2023, organizações com agendas antigênero movimentaram pelo menos 1,18 bilhão de dólares (mais de 6 bilhões de reais) na Europa.
Como “antigênero” o estudo se refere a associações, empresas, partidos políticos e outras organizações que estão engajadas em minar os direitos sexuais e reprodutivos, os direitos LGBTQIA+, os direitos das crianças e as políticas e atitudes sociais que favorecem a igualdade de gênero.
E traz um amplo panorama do crescimento do extremismo religioso na Europa e sua conexão com redes internacionais de financiamento, principalmente nos Estados Unidos e na Rússia.
Segundo o relatório, 275 organizações operaram com esses recursos ao longo de cinco anos. A maior parte do dinheiro veio de dentro da própria Europa — cerca de 73% (869,5 milhões de dólares).
A Rússia aparece como o segundo maior financiador, com 211,9 milhões de dólares. Já os EUA, por meio de grupos da direita cristã, destinaram cerca de 104,3 milhões de dólares à causa no continente, representando 9% do total.
Os cinco países com os maiores montantes de financiamento antigênero foram Hungria (172,2 milhões de dólares), França (165,7 milhões), Reino Unido (156 milhões), Polônia (90,7 milhões) e Espanha (66,4 milhões).
Esses números acompanham o crescimento dos partidos, políticas públicas e campanhas ultraconservadoras e de extrema direita nestes países.
No topo da lista, a Hungria sob a liderança de Viktor Orbán em sua autodeclarada “democracia iliberal” e sua guerra cultural contra a população LGBTQ+, a mídia, os tribunais e as universidades, tem sido vista como um dos principais exemplos para a extrema direita mundial.
O país já aprovou diversas emendas e legislações anti-direitos como a proibição da marcha do orgulho LGBTQIA+, determinou que existe apenas dois gêneros, feminino e masculino, que são determinados no nascimento, e criminaliza como “traidores da pátria” cidadãos que criticam o regime.
O volume de recursos disponibilizados nas pautas anti-direitos também foi aumentando de forma consistente na Europa: em 2019, foram investidos 220 milhões de dólares; em 2022, o número subiu para 271 milhões.
A principal responsável pelo salto foi a Rússia, que dobrou seus investimentos no período.
Quem banca?
O levantamento detalha os principais atores por trás dessa movimentação financeira: 127 organizações de lobby e advocacy representaram quase 29% do total.
Entre os grupos mais influentes estão o Centro Húngaro para Direitos Fundamentais, a rede TFP (Tradição, Família e Propriedade) – que nasceu no Brasil em na década de 1960 e se espalhou pelo mundo – a Fédération Pro Europa Christiana (França), e o Christian Institute (Reino Unido).
Essas entidades atuam em frentes diversas, mas com foco comum: oposição ao aborto, à educação sexual, e aos direitos LGBTQIA+.
Mas a ofensiva não se limita ao campo político ou jurídico. Quase um quarto dos recursos (273,6 milhões de dólares) foi destinado a veículos de mídia ligados ao extremismo religioso.
Fundos privados e fundações de grandes fortunas também têm papel importante.
Nos EUA, bilionários ligados à extrema-direita — como as famílias DeVos (Amway), Uihlein (Papermate), Koch (Koch Industries), Green (Hobby Lobby) e Waller (Jockey) — estão entre os principais financiadores.
Muitas dessas doações são feitas por meio de DAFs (Donor-Advised Funds), fundos que permitem doações anônimas com benefícios fiscais.
Entre os maiores estão a Donors Trust e a National Christian Charitable Foundation, que já canalizaram centenas de milhões de dólares para entidades ultraconservadoras como a Alliance Defending Freedom (ADF) e a Heritage Foundation.
Essas fundações não apenas financiam, mas elaboram estratégias políticas e jurídicas de longo prazo.
Em 2023, a ADF apresentou a bilionários cristãos a proposta de uma campanha judicial para “derrubar o sistema educacional” dos EUA, com base em disputas legais sobre o “direito dos pais” à educação dos filhos.
A meta, segundo o próprio material divulgado pela organização, seria transferir até 237 bilhões de dólares da educação pública para escolas religiosas privadas em três anos.
A ADF também levou essa agenda à Europa. Em setembro de 2024, durante uma conferência fechada em Zagreb, na Croácia, a organização apresentou sua “Carta dos Direitos dos Pais” a ativistas extremistas de diversos países, com foco em pautas contra a diversidade de gênero nas escolas.
Outro nome citado na investigação é a rede Ziklag, formada por financiadores cristãos que pregam a teologia do domínio religioso sobre as esferas sociais e políticas.
A organização já enviou milhões de dólares para campanhas nos EUA e Europa, com o objetivo declarado de influenciar eleições e moldar políticas públicas com base em preceitos religiosos.
Partidos políticos também fazem parte dessa ofensiva. Ao todo, 30 siglas e think tanks estiveram envolvidos diretamente no financiamento e articulação de pautas antigênero, incluindo a Fundação Disenso (ligada ao partido Vox, da Espanha), a New Direction Foundation (do Partido Conservador Europeu e Reformista), e o ISSEP, da França.
O estudo mostra que, com base em uma linguagem moralizante e discursos centrados em “valores cristãos”, “liberdade religiosa” e “direitos da família”, essas organizações vêm ganhando espaço na política institucional, na justiça, na mídia e na educação.
Alerta também que essa rede transnacional não opera de maneira espontânea: É um projeto de poder, sofisticado, bem financiado e conectado globalmente, com o objetivo claro de restringir direitos, controlar narrativas e enfraquecer democracias.
Como diz a introdução da pesquisa, “A próxima onda não está chegando; ela já está aqui. Essa reação antifeminista e contra a igualdade de gênero está aliada a líderes autoritários em ascensão e populistas de extrema direita que estão capturando instituições democráticas para esvaziá-las por dentro”.
A coluna trará mais detalhes sobre essa investigação nas próximas semanas.