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Por Ayam Fonseca
Cinco anos após ter colocado um quadro com os dizeres “Temos Machado de Assis proibidão” — um protesto contra a Secretaria de Educação de Rondônia, que tentou censurar os livros do Bruxo do Cosme Velho –, Ivan Costa, dono do sebo “Belle Époque , se vê mais uma vez obrigado a pendurar um cartaz semelhante, dessa vez com destaque para outro medalhão da literatura brasileira: Jorge Amado.
O quadro negro estampado com a frase “Temos Jorge Amado proibidão” escrita a giz, enfeita a entrada da loja de livros usados, localizada no bairro do Méier, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A tela, desta vez, é em resposta à tentativa da vereadora bolsonarista Jéssica Lemonie (PL), da cidade de Itapoá (SC), de proibir o livro Capitães da Areia, de Jorge Amado, do acervo das escolas públicas.
Ivan Costa
O argumento usado para justificar a tentativa de censura é que o livro contém trechos de violência e criminalidade, e “promove a marginalização infantil”. Lemonie também cita que Jorge Amado foi “escritor comunista”, e que a inclusão de sua obra nas escolas seria parte de uma “infiltração da esquerda” através dos livros.
O dono da Belle Époque, no entanto, discorda da vereadora e enxerga a obra-prima de Jorge Amado por uma ótica mais lúcida. “É absurdo. Nenhum moleque que lê [Capitães da Areia] quer virar o Pedro Bala. É muito claro que é uma crítica social muito forte”, pontuou Ivan.
Para o livreiro, esse movimento é usado como forma de promover desinformação e alimentar o sentimento de anticomunismo, por isso os ataques a quem trabalha com cultura, livros e literatura.

O protesto que viralizou em 2020
Protesto contra a censura
Em 2020, quando lutou contra a proibição dos livros de Machado, Ivan recorda a projeção que seu protesto tomou. “Isso gerou um debate. Tinha gente de Portugal mandando mensagem, cara […] A gente, uma livraria pequena, do subúrbio do Rio, conseguiu esquentar o debate, porque a cada pessoa que compartilhava a imagem [do quadro] passava a frente essa mensagem de questionamento”, lembra.
Desta vez, Ivan segue com sua crença que é importante se posicionar frente a casos de censura .
“A internet trabalha com irreverência e provocação. Então, se eu simplesmente fizer um textão, muita gente não vai ler. Mas uma provocação como essa vai causar, vai instigar. E é a partir daí que surge o debate. Primeiro a gente instiga, faz a provocação e depois traz esse debate”.
Ele conta que a procura pelos livros do Machado de Assis aumentou muito após seu protesto em 2020, e que a postagem do quadro de Jorge Amado nas redes sociais do sebo já tem atraído mais atenção que o normal.
“Inclusive eu já preparei as estantes com livros do Jorge Amado que eu tenho aqui”, diz Ivan, que faz questão de pontuar que seu protesto não é uma jogada de marketing. “Esses livros são muito baratos. Como é um autor muito importante, ele tem muito mercado, então eu vendo esses livros a R$ 5, R$ 10 reais no máximo”.
Para o livreiro, o quadro com “Temos Jorge Amado proibidão” escrito a giz foi a forma de acender um debate fundamental no Brasil.
*Estagiário sob supervisão de Chico Alves