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Por Laura Kotscho
“Está acontecendo um processo de higienização, apagamento e silenciamento na Cracolândia”. A denúncia é de Leona Jhovs (37), presidente do Instituto Luz, que há 7 anos atua na região localizada no centro de São Paulo, promovendo iniciativas culturais e de auxílio social aos usuários de drogas. O projeto, entretanto, vem sofrendo com uma intensa repressão policial por parte dos governos municipal e do estado, que têm dificultado a entrada de coletivos no local.
Entre outras iniciativas, o Instituto Luz promove a distribuição de alimentos aos moradores da região, no projeto batizado de “você tem fome de quê?”. Junto com a ação, ocorrem performances artísticas e culturais. “A gente entende que a população ali no entorno não tem fome só de comida”, justifica Leona.
Em um desses atos de distribuição de marmitas, a presidente do Instituto chegou a sofrer violência física da GCM (Guarda Civil Municipal): “No momento em que eu fui informar para os moradores que a alimentação estava disponível, um cabo da CGM me pediu para encostar na parede. Eu disse que ia ligar para os meus advogados, mas eles não deixaram. Mesmo assim, fui pegar meu celular na bolsa. Nesse momento, eu senti um soco na minha costela”.
Instituto Luz promove iniciativas culturais e de auxílio social na região da Luz, no centro de São Paulo – Foto: Luca Meola
Leona relata que a repressão policial no território vem se intensificando desde a pandemia, mas que a repressão para impedir a atuação dos coletivos começou em novembro de 2024. “De 6 meses pra cá a truculência policial tem sido muito maior. Estamos testemunhando um processo silencioso, mas extremamente violento”.
O motivo, segundo ela, seria a mudança da sede do Governo de São Paulo para a região: “Eles estão limpando aquele território para que se instale essa sede administrativa do governo”. Em janeiro deste ano, o governo anunciou a construção da nova sede na região do Campos Elíseos, que compreende o território da Luz. De acordo com a nota disponibilizada no site do governo do estado, a obra pretende ser “o maior projeto de transformação do centro da capital para os próximos anos”.
“A gente está fazendo aquilo que o Governo do Estado de São Paulo deveria estar fazendo. Essa truculência está nos impedindo de fazer o que é papel deles”, afirma Leona.

Projetos sociais que atuam na Cracolândia vem sofrendo intensa repressão policial por parte do governo municipal e do estado de São Paulo – Foto: Luca Meola
Violência policial com outros coletivos
Da mesma forma, outros coletivos parceiros do Instituto Luz que atuam na região também vêm sofrendo com a repressão policial. O projeto “Pagode na Lata”, que promove rodas de samba, e o grupo de palhaçaria “Trupecar”, estão sendo ameaçados para encerrar suas atividades.
Integrantes do projeto TTT (Teto, Trampo e Tratamento), foram submetidos à humilhação durante uma ação policial no fluxo. Já o coletivo Tem Sentimento, que capacita mulheres através de oficinas de costura, está sendo intimidado a se retirar.

Prefeitura de SP construiu muro de 40 metros de extensão para isolar usuários da Cracolânida – Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Mesmo com as diversas tentativas de repressão, os coletivos seguem resistindo. Recentemente, foi criado o Circo Luz, uma iniciativa do Instituto Luz em colaboração com os coletivos parceiros, que tem como objetivo promover a inclusão social e cultural da população em situação de vulnerabilidade que mora na Cracolândia. O projeto foi viabilizado por meio de uma emenda parlamentar da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP).
Com os relatos de aumento da repressão, o mandato da deputada gerou um ofício cobrando explicações da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo e da Secretaria Municipal de Segurança em relação ao sufocamento das atividades na região.