Cruzando fronteiras com refugiados, testemunhando crimes contra a humanidade, viajando com papas ou cobrindo cúpulas diplomáticas, Jamil Chade percorreu mais de 70 países. Com seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele foi eleito o segundo jornalista mais admirado do Brasil em 2025. Chade foi indicado 4 vezes como finalista do prêmio Jabuti. Ele é embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade.
O Conselho de Segurança da ONU vira palco de troca de acusações entre potências. Nesta segunda-feira, em Nova Iorque e poucos quilômetros de onde Nicolás Maduro estava sendo apresentado à Justiça, o órgão máximo das Nações Unidas foi convocado em caráter de emergência para lidar com a crise na Venezuela.
O que se viu, porém, foi a transformação do encontro em uma demonstração da tensão global e do abalo nas regras que administram as relações internacionais. Russos e chineses pediram que Maduro fosse liberto e não pouparam críticas contra o governo de Donald Trump, inclusive com termos pouco comuns nas reuniões na ONU.
Já o governo americano justificou a ação, alegando que Maduro não era o líder da Venezuela e que “não existe uma guerra contra a Venezuela”.
A reunião foi convocada pelo governo de Caracas, apoiada pela Colômbia. Mas, antes mesmo do encontro começar, a tensão marcou as negociações. O governo de Donald Trump tentou limitar o número de países que seriam autorizados a falar, sob a alegação de que o encontro poderia ficar “longo demais”.
A primeira a falar foi Rosemary Di Carlo, vice-secretária-geral da ONU. Ela leu uma declaração em nome do secretário-geral, António Guterres. Segundo a entidade, a reunião ocorre em um “momento grave”.
Apesar dos detalhes da operação militar, para ele, o que não está certo é o futuro da Venezuela. Guterres indicou que está preocupado com a intensificação da violência no país, na região e criaria um “precedente sobre como deve ocorrer a relação entre países”.
Guterres deixou claro que o governo Maduro violou direitos humanos e não foi transparente sobre as eleições de 2024. Mas alertou sobre a necessidade de que o direito internacional e a Carta da ONU sejam respeitadas.
“Estou profundamente preocupado com a possível intensificação da instabilidade no país, o potencial impacto na região e o precedente que isso pode criar para a forma como as relações entre os Estados são conduzidas”, disse Guterres.
“Os últimos acontecimentos seguem um período de tensões elevadas, que começou em meados de agosto. Como discutido neste Conselho em duas ocasiões anteriores, tenho reiteradamente enfatizado a necessidade imperativa do pleno respeito de todos pelo direito internacional, incluindo a Carta das Nações Unidas, que fornece a base para a manutenção da paz e da segurança internacionais. Permaneço profundamente preocupado com o fato de as normas do direito internacional não estarem sendo respeitadas.
“Venezuela viveu por décadas instabilidade, democracia foi minada e milhões deixaram o país. Mas é ainda possível evitar uma guerra maior”, alertou Guterres. Ele pediu que haja dialogo democrático e que os venezuelanos possam definir seu próprio futuro.
A palavra então foi passada para Jeffrey Sachs, presidente da rede de soluções de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Seu nome foi proposto pela Colômbia e teve apoio de Rússia e China. “O que está em questão não é o governo. Mas se alguém tem o direito de controlar outro país”, alertou.
Segundo ele, desde 1947, os EUA usou força e manipulação para mudar regimes em outros países. Isso ocorreu em 70 ocasiões e não acabou com o fim a Guerra Fria. Agora, o foco seria a Venezuela.
“São medidas ilegais e que geram mais violência e profundo sofrimento da população civil”, alertou.
Segundo Sachs, diferentes governos americanos tentaram derrubar o governo da Venezuela durante os últimos 20 anos.
Em resposta às acusações, o governo dos EUA exigiu que fosse incluída na lista de oradores Mercedes de Freitas, diretora-executiva da entidade Transparência Internacional. Ela tomou a palavra para denunciar a corrupção em Caracas e Nicolas Maduro, em especial.
Segundo ela, o comércio ilegal de ouro e drogas teriam movimentado US$ 8 bilhões, principalmente com rotas na Amazônia. Mercedes ainda acusou o estado de “extorsão” e denunciou a falta de alimentos no país. A entidade também denunciou a existência de mil prisioneiros políticos e alertou para a tortura.
Entre os governos, o primeiro a discursar foi a Colômbia. O governo de Bogotá “condenou categoricamente” os ataques dos EUA. “Trata-se de uma violação de soberania e de integridade territorial”, disse a delegação colombiana. “Não há justificativa e é violação do direito internacional”, alertou.
Bogotá pediu uma desescalada da tensão e explicou que reforçou a segurança na fronteira. “Rejeitamos qualquer ação militar unilateral. O caso lembra das piores intervenções em nossa região”, completou.
Para o governo de Gustavo Petro, a democracia não pode ser promovido por “força e coerção”.
Já o governo da Rússia disse que a ação americana chocou o mundo. “O assalto contra o líder da Venezuela é uma volta à era sem lei e domínio dos EUA pela força sobre países”, disse o embaixador da Rússia, Vasily Nebenzya.
Ele chamou o ato de “um crime cometido cinicamente pelos EUA” e condenou os atos. “Pedimos que EUA solte imediatamente Maduro”, afirmou.
“Esse é seu mundo e é horrível”, alertou o diplomata. Ele chamou o ato de “bandidagem”.
Para ele, tais gestos mostram o cinismo dos EUA e a incapacidade de ditar o que “outros devem fazer”. “Eles nem escondem os objetivos. Querem os recursos naturais”, disse.
O russo foi explícito: o que Trump faz é “neocolonialismo e imperialismo”.
Os sinos tocam para todos na região e a todos no mundo. Segundo ele, quem não reagir é “covarde”. “Não podemos deixar os EUA achar que são um juiz supremo”, afirmou.
Ao tomar a palavra, o governo da China afirmou que se opõe aos atos americanos e alertou que tais ofensivas “ameaçam a estabilidade regional”.
“Pare de tentar derrubar o governo da diplomacia”, apelou o diplomata de Pequim, Fu Cong. Para a China, o caminho deve ser a diplomacia.
O governo de Pequim ainda fez um apelo para que haja uma garantia de segurança para Maduro e a “libertação imediata” do ex-presidente.
A China apresentou uma lista das violações americanas ao longo dos anos, indicando como elas causaram conflitos e instabilidade, alem de sofrimento para pessoas. “Trouxeram desenvolvimento?”, questionou.
“Como membro permanente do Conselho, os EUA ignoraram as graves preocupações da comunidade internacional, atropelaram descaradamente a soberania, a segurança e os direitos e interesses legítimos da Venezuela e violaram gravemente os princípios da igualdade soberana”, disse Fu Cong. “Nenhum país pode agir como a polícia do mundo, nem pode qualquer Estado presumir ser o juiz internacional”, insistiu.
“Demandamos que EUA parem de promover bullying contra outros países”, completou a delegação chinesa.
O governo dos EUA, então, tomou a palavra para defender sua “operação cirúrgica” contra o “narcoterrorista” Maduro.
“Não existe guerra contra a Venezuela e não vamos ocupar um país.
“Esta foi uma operação policial para dar seguimento a acusações legais que existem há décadas”, acrescentou Mike Waltz, embaixador dos EUA na ONU. Ele sugeriu que há precedentes para esse tipo de ação após a captura, pelos EUA, do ex-líder do Panamá, Manuel Noriega, em 1989.
Waltz afirmou que as “provas esmagadoras” dos crimes de Maduro serão “apresentadas abertamente nos tribunais dos EUA”.
“Maduro não é apenas um narcotraficante indiciado. Ele era um presidente ilegítimo”, disse o embaixador. “Quero reiterar que o presidente Trump deu uma chance à diplomacia. Ele ofereceu a Maduro várias propostas para tentar reduzir a tensão. Maduro se recusou a aceitá-las.”
“Ele (Maduro) não era um chefe de estado”, alegou, indicando que a eleição de 2024 teria sido manipulada. “Ele é o chefe de uma organização criminosa”, justificou.
Waltz ainda alegou que Maduro “enriqueceu” com o tráfico de drogas e insistiu que, no Hemisfério Ocidental, os EUA não vão permitir que bases sejam criadas contra seus interesses.
“Não vamos permitir que o Ocidente sirva como base de operações para os adversários e rivais dos EUA. Não se pode deixar que as maiores reservas energéticas do mundo estejam sob o controle de adversários dos Estados Unidos”, disse.
O governo dos EUA também ouviu críticas por parte da Dinamarca, país que vem sendo pressionado a ceder a Groenlândia. “Fronteiras não são negociáveis. Trata-se de um princípio sacrossanto”, alertou.
O governo escandinavo não deixou de denunciar Maduro por crimes contra os direitos humanos e insistiu que não reconheceu sua eleição. Mas alertou que cabe aos venezuelanos determinar seu futuro, “sem coerção”.
O governo do Reino Unido também criticou Maduro e sua “manipulação das eleições”, mas se limitou a dizer que países devem cumprir o direito internacional.
A diplomacia francesa também usou o encontro para denunciar a fraude na eleição de 2024 e alertou que Maduro respondeu com “repressão”. Mas, para Paris, a transição política em Caracas deve ser conduzida “pelos venezuelanos”.
Divisão no continente impediu que uma declaração final fosse adotada
O Conselho de Segurança da ONU vira palco de troca de acusações entre potências. Nesta segunda-feira, em Nova Iorque e poucos quilômetros de onde Nicolás Maduro estava sendo apresentado à Justiça, o órgão máximo das Nações Unidas foi convocado em caráter de emergência para lidar com a crise na Venezuela.
O que se viu, porém, foi a transformação do encontro em uma demonstração da tensão global e do abalo nas regras que administram as relações internacionais. Russos e chineses pediram que Maduro fosse liberto e não pouparam críticas contra o governo de Donald Trump, inclusive com termos pouco comuns nas reuniões na ONU.
Já o governo americano justificou a ação, alegando que Maduro não era o líder da Venezuela e que “não existe uma guerra contra a Venezuela”.
A reunião foi convocada pelo governo de Caracas, apoiada pela Colômbia. Mas, antes mesmo do encontro começar, a tensão marcou as negociações. O governo de Donald Trump tentou limitar o número de países que seriam autorizados a falar, sob a alegação de que o encontro poderia ficar “longo demais”.
A primeira a falar foi Rosemary Di Carlo, vice-secretária-geral da ONU. Ela leu uma declaração em nome do secretário-geral, António Guterres. Segundo a entidade, a reunião ocorre em um “momento grave”.
Apesar dos detalhes da operação militar, para ele, o que não está certo é o futuro da Venezuela. Guterres indicou que está preocupado com a intensificação da violência no país, na região e criaria um “precedente sobre como deve ocorrer a relação entre países”.
Guterres deixou claro que o governo Maduro violou direitos humanos e não foi transparente sobre as eleições de 2024. Mas alertou sobre a necessidade de que o direito internacional e a Carta da ONU sejam respeitadas.
“Estou profundamente preocupado com a possível intensificação da instabilidade no país, o potencial impacto na região e o precedente que isso pode criar para a forma como as relações entre os Estados são conduzidas”, disse Guterres.
“Os últimos acontecimentos seguem um período de tensões elevadas, que começou em meados de agosto. Como discutido neste Conselho em duas ocasiões anteriores, tenho reiteradamente enfatizado a necessidade imperativa do pleno respeito de todos pelo direito internacional, incluindo a Carta das Nações Unidas, que fornece a base para a manutenção da paz e da segurança internacionais. Permaneço profundamente preocupado com o fato de as normas do direito internacional não estarem sendo respeitadas.
“Venezuela viveu por décadas instabilidade, democracia foi minada e milhões deixaram o país. Mas é ainda possível evitar uma guerra maior”, alertou Guterres. Ele pediu que haja dialogo democrático e que os venezuelanos possam definir seu próprio futuro.
A palavra então foi passada para Jeffrey Sachs, presidente da rede de soluções de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Seu nome foi proposto pela Colômbia e teve apoio de Rússia e China. “O que está em questão não é o governo. Mas se alguém tem o direito de controlar outro país”, alertou.
Segundo ele, desde 1947, os EUA usou força e manipulação para mudar regimes em outros países. Isso ocorreu em 70 ocasiões e não acabou com o fim a Guerra Fria. Agora, o foco seria a Venezuela.
“São medidas ilegais e que geram mais violência e profundo sofrimento da população civil”, alertou.
Segundo Sachs, diferentes governos americanos tentaram derrubar o governo da Venezuela durante os últimos 20 anos.
Em resposta às acusações, o governo dos EUA exigiu que fosse incluída na lista de oradores Mercedes de Freitas, diretora-executiva da entidade Transparência Internacional. Ela tomou a palavra para denunciar a corrupção em Caracas e Nicolas Maduro, em especial.
Segundo ela, o comércio ilegal de ouro e drogas teriam movimentado US$ 8 bilhões, principalmente com rotas na Amazônia. Mercedes ainda acusou o estado de “extorsão” e denunciou a falta de alimentos no país. A entidade também denunciou a existência de mil prisioneiros políticos e alertou para a tortura.
Entre os governos, o primeiro a discursar foi a Colômbia. O governo de Bogotá “condenou categoricamente” os ataques dos EUA. “Trata-se de uma violação de soberania e de integridade territorial”, disse a delegação colombiana. “Não há justificativa e é violação do direito internacional”, alertou.
Bogotá pediu uma desescalada da tensão e explicou que reforçou a segurança na fronteira. “Rejeitamos qualquer ação militar unilateral. O caso lembra das piores intervenções em nossa região”, completou.
Para o governo de Gustavo Petro, a democracia não pode ser promovido por “força e coerção”.
Já o governo da Rússia disse que a ação americana chocou o mundo. “O assalto contra o líder da Venezuela é uma volta à era sem lei e domínio dos EUA pela força sobre países”, disse o embaixador da Rússia, Vasily Nebenzya.
Ele chamou o ato de “um crime cometido cinicamente pelos EUA” e condenou os atos. “Pedimos que EUA solte imediatamente Maduro”, afirmou.
“Esse é seu mundo e é horrível”, alertou o diplomata. Ele chamou o ato de “bandidagem”.
Para ele, tais gestos mostram o cinismo dos EUA e a incapacidade de ditar o que “outros devem fazer”. “Eles nem escondem os objetivos. Querem os recursos naturais”, disse.
O russo foi explícito: o que Trump faz é “neocolonialismo e imperialismo”.
Os sinos tocam para todos na região e a todos no mundo. Segundo ele, quem não reagir é “covarde”. “Não podemos deixar os EUA achar que são um juiz supremo”, afirmou.
Ao tomar a palavra, o governo da China afirmou que se opõe aos atos americanos e alertou que tais ofensivas “ameaçam a estabilidade regional”.
“Pare de tentar derrubar o governo da diplomacia”, apelou o diplomata de Pequim, Fu Cong. Para a China, o caminho deve ser a diplomacia.
O governo de Pequim ainda fez um apelo para que haja uma garantia de segurança para Maduro e a “libertação imediata” do ex-presidente.
A China apresentou uma lista das violações americanas ao longo dos anos, indicando como elas causaram conflitos e instabilidade, alem de sofrimento para pessoas. “Trouxeram desenvolvimento?”, questionou.
“Como membro permanente do Conselho, os EUA ignoraram as graves preocupações da comunidade internacional, atropelaram descaradamente a soberania, a segurança e os direitos e interesses legítimos da Venezuela e violaram gravemente os princípios da igualdade soberana”, disse Fu Cong. “Nenhum país pode agir como a polícia do mundo, nem pode qualquer Estado presumir ser o juiz internacional”, insistiu.
“Demandamos que EUA parem de promover bullying contra outros países”, completou a delegação chinesa.
O governo dos EUA, então, tomou a palavra para defender sua “operação cirúrgica” contra o “narcoterrorista” Maduro.
“Não existe guerra contra a Venezuela e não vamos ocupar um país.
“Esta foi uma operação policial para dar seguimento a acusações legais que existem há décadas”, acrescentou Mike Waltz, embaixador dos EUA na ONU. Ele sugeriu que há precedentes para esse tipo de ação após a captura, pelos EUA, do ex-líder do Panamá, Manuel Noriega, em 1989.
Waltz afirmou que as “provas esmagadoras” dos crimes de Maduro serão “apresentadas abertamente nos tribunais dos EUA”.
“Maduro não é apenas um narcotraficante indiciado. Ele era um presidente ilegítimo”, disse o embaixador. “Quero reiterar que o presidente Trump deu uma chance à diplomacia. Ele ofereceu a Maduro várias propostas para tentar reduzir a tensão. Maduro se recusou a aceitá-las.”
“Ele (Maduro) não era um chefe de estado”, alegou, indicando que a eleição de 2024 teria sido manipulada. “Ele é o chefe de uma organização criminosa”, justificou.
Waltz ainda alegou que Maduro “enriqueceu” com o tráfico de drogas e insistiu que, no Hemisfério Ocidental, os EUA não vão permitir que bases sejam criadas contra seus interesses.
“Não vamos permitir que o Ocidente sirva como base de operações para os adversários e rivais dos EUA. Não se pode deixar que as maiores reservas energéticas do mundo estejam sob o controle de adversários dos Estados Unidos”, disse.
O governo dos EUA também ouviu críticas por parte da Dinamarca, país que vem sendo pressionado a ceder a Groenlândia. “Fronteiras não são negociáveis. Trata-se de um princípio sacrossanto”, alertou.
O governo escandinavo não deixou de denunciar Maduro por crimes contra os direitos humanos e insistiu que não reconheceu sua eleição. Mas alertou que cabe aos venezuelanos determinar seu futuro, “sem coerção”.
O governo do Reino Unido também criticou Maduro e sua “manipulação das eleições”, mas se limitou a dizer que países devem cumprir o direito internacional.
A diplomacia francesa também usou o encontro para denunciar a fraude na eleição de 2024 e alertou que Maduro respondeu com “repressão”. Mas, para Paris, a transição política em Caracas deve ser conduzida “pelos venezuelanos”.
Divisão no continente impediu que uma declaração final fosse adotada