Nesta seção, o portal ICL Notícias vai resgatar textos, imagens e sons que façam o leitor dar uma pausa na marcha imediata e angustiante dos fatos, para refletir com autores geniais, tanto do Brasil quanto de outros países.
Hoje, publicamos mais uma crônica do mestre Paulo Mendes Campos, uma crítica aos governantes do Rio de Janeiro, que, a título de manter a ordem urbana, tomavam medidas que tornavam a rotina do cidadão bem mais monótona, menos prazerosa. É o que lemos na crônica “Foram proibidas as baianas”, publicada no jornal Diário Carioca, em 1954.
Foram probidas as baianas
Foram proibidas as baianas. Certas autoridades parecem estar decididas a tornar esta cidade bela e de vida difícil em uma cidade chata e sem caráter. Uma dessas iniciativas evidentes é a proibição das baianas.
Ora, eu não creio que as autoridades sejam propriamente imaginativas. Com a pouca imaginação que Deus me deu, quero dar, portanto, espontaneamente, minha colaboração a esses que estão procurando criar um programa administrativo que faça do Rio de Janeiro uma cidade sem cor, irrespirável, aborrecida. Sugiro assim às autoridades competentes que se adotem ainda, no mesmo sentido das baianas, as seguintes medidas:
É proibido torcer em voz alta nos jogos de futebol;
É proibido conversar sobre futebol no interior das repartições públicas;
É proibido, mesmo, jogar no bicho;
É proibido, além da peteca, do vôlei e do futebol, pegar jacaré na praia;
É proibido tomar pinga;
É proibido andar de short nas ruas, não se permitindo às mulheres o uso de calças compridas, mas sendo obrigatório o uso de calças curtas;
É proibido à torcida do Flamengo qualquer manifestação depois das vitórias ou dos empates;
É proibido patear em salas de projeção quando aparece na tela uma figura do governo (mesmo quando esta figura for impopular);
É proibido soltar papagaio em logradouros públicos;
É proibido ter passarinho na gaiola;
É proibido assoviar para o broto que passa;
É proibido olhar mais de três segundos para a mulher que passa;
É proibido vender amendoim torrado;
É proibido alugar cavalinhos ou charretes para a alegria das criancinhas;
É proibido vender balões coloridos;
É proibido a permanência de casal dentro de automóvel parado em qualquer ponto da cidade;
É proibido namorar a menos de metro de distância;
É proibido aos indivíduos sem gravata sentar nos bancos da praça Paris ou de outros logradouros muito expostos à natural indiscrição dos turistas;
É proibido a qualquer indivíduo deitar-se nas pedras do Passeio Público;
Revoguem-se às disposições em contrário, e aceitam-se sugestões para novas proibições.
…Se as autoridades promulgassem essas medidas, não tenho dúvidas que o objetivo perseguido por elas seria plenamente atingido: não haveria no mundo cidade mais desagradável e idiota do que o Rio de Janeiro.
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“Paulo Mendes Campos nasceu em 28 de fevereiro de 1922, em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. Ele iniciou os cursos de Odontologia, Veterinária, Aviação e Direito, mas desistiu de todos eles. Ingressou no serviço público e também escreveu livros de poesia, além de crônicas para diversos periódicos.
O cronista, que faleceu em 1º de julho de 1991, no Rio de Janeiro, faz parte da terceira fase modernista (ou pós-modernismo). Suas obras são marcadas pelo lirismo, que ele levou da poesia para suas crônicas, gênero pelo qual o autor é mais conhecido.” (Fonte: Brasil Escola)