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Bolsonaristas e STF afundam juntos com liquidação do Master; BC de Galípolo agiu bem

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 23/12/2025 às 05:45 · Atualizado há 3 dias
Bolsonaristas e STF afundam juntos com liquidação do Master; BC de Galípolo agiu bem
Foto: Reprodução / Arquivo

A notícia publicada pela colunista Malu Gaspar no site de O Globo na manhã de ontem, 22 de dezembro, revelando que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, havia procurado pessoalmente, em quatro oportunidades, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, provocou um impacto político, jurídico e midiático em Brasília de proporções semelhantes àquele que o terrorista de 24 de dezembro de 2022 quis provocar na capital da República com o nefasto e mal sucedido (graças a Deus!) atentado no Aeroporto Juscelino Kubitschek.

O relato da jornalista foi frio – ao menos seis fontes confirmaram a informação inicial –, factual – foram quatro conversas, três delas telefônicas e uma convocação do ministro do STF para que o presidente do BC fosse até ele – e cirúrgico: segundo Gaspar, Moraes deixou claro que gostava de Daniel Vorcaro e usou com Galípolo argumentos chinfrins de autodefesa do ex-banqueiro mineiro que se diz vítima “dos grandes bancos comerciais”.

Sempre muito rápido em rebater erros ou maledicências da imprensa ou de polemistas e jagunços que ocupam as redes e o ecossistema da internet a soldo da extrema-direita para atacá-lo pelo papel essencial de combate e desmonte das estruturas golpistas e antidemocráticas do país, Alexandre de Moraes conservou-se estranhamente mudo sobre o furo jornalístico dado pela colunista do site de O Globo.

 

SILÊNCIO COMPROMETE IMAGEM DE MORAES

O STF tampouco se pronunciou. Outros ministros do Supremo, amigos comuns de Moraes e de Vorcaro, ficaram em silêncio. Mesmo advogados que transitam na penumbra dos convescotes privados criados no exterior para unir em embustes de mesas de debate ministros de tribunais superiores, protagonistas de escândalos da República, lobistas fantasiados de empresários e alguns veículos de comunicação que adoram se dar a esse desfrute, evitaram subir à ribalta.

Ante evidente constrangimento, o que ecoava a partir da Concha Acústica de Brasília para todo o Brasil era o apelo sóbrio, maduro e necessário do ministro Edson Fachin: para da hora de dotar o Supremo Tribunal Federal e, de resto, toda a magistratura nacional, sobretudo os tribunais superiores, de um Código de Conduta. Esse Código tem de açambarcar o Tribunal de Contas da União, que não pertence ao Poder Judiciário, é órgão auxiliar do Congresso Nacional, contudo se deixa levar por lobbies tão avacalhantes como as patranhas promovidas pelos sócios do Banco Master nesses últimos anos na cena nacional.

Quando beijou a lona, liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central, o Banco Master tinha operações a descoberto de R$ 12 bilhões, só fechava seu caixa diário porque a linha de redesconto do BC (uma espécie de caixa extra de empréstimos disponibilizado pela autoridade monetária às instituições que estão momentaneamente com o patrimônio líquido a descoberto – ou seja, fechava o dia no prejuízo com mais dívidas a saldar do que lucros a realizar em suas operações) o salvava havia meses a fio e tinha um controlador que tramava as saídas mais esdrúxulas possíveis para não se tornar ex-banqueiro. Nos ardis montados por Vorcaro e por seu principal sócio, Augusto Lima, a ocupação do Banco Regional de Brasília (BRB), maquiada como uma venda do banco privado ao banco público do Distrito Federal, foi a mais ousada e mambembes das soluções esboçadas. A ruindade da saída terminou por expor a inépcia e as relações contaminadas dos operadores.

Uma das virtudes de segurança sistêmica das liquidações extrajudiciais é obrigar controladores e diretores da instituição quebrada a entrarem com os patrimônios pessoais no para ajudar a cobrir os prejuízos. Outra, é a conversão imediata dos liquidados em “ex-banqueiros”. Vorcaro e Lima são, neste momento e quiçá para todo o sempre, ex-banqueiros. Foi dessa pecha de desonra, além da exposição de seus erros como gestor, que o ex-banqueiro Ângelo Calmon de Sá quis evitar em agosto de 1995, quando assistiu impotente à quebra e à liquidação extrajudicial de seu Banco Econômico.

 

RUÍNA DO ECONÔMICO DEVIA TRAZER LIÇÕES AO CASO MASTER

Ao contrário do ocorrido com o Master, a debacle do Econômico levou “risco sistêmico” ao mercado financeiro. Calmon de Sá, herdeiro e presidente do banco baiano que faria 161 anos quando ruiu, era um dos papas do Sistema Financeiro Nacional naquele momento. Havia sido presidente do Banco do Brasil em duas oportunidades. Por quase quatro meses, a instituição baiana só fechava seu caixa pegando crédito no redesconto do Banco Central. Quando foi liquidado, seu patrimônio líquido a descoberto era de R$ 2,6 bilhões, valor histórico, equivalente a R$ 25 bilhões hoje. Ou, por outra, o dobro do buraco do Master.

Ângelo Calmon de Sá era o caixa da direita nacional naquele momento. Comparada à extrema-direita brasileira de hoje, que devorou, digeriu e regurgita por meio dos soluços asquerosos de Jair Bolsonaro o que existiu de “direita liberal clássica” no país, a direita nacional financiada pelo ex-banqueiro baiano era uma espécie de mesão (do Bradesco) povoada por déspotas esclarecidos.

Antônio Carlos Magalhães, cacique da Arena, depois do PDS e, por fim, do PFL da Bahia, era voz de mais alta patente a se erguer em Brasília contra a ruinosa queda do Econômico. O governo comandado por Fernando Henrique Cardoso estava dividido sobre o tema e o Supremo Tribunal Federal jamais disse um “ai” a favor do bancão baiano – era o 3º maior banco privado do Brasil quando desmoronou. Nenhum ministro do Supremo procurou Gustavo Loyola, presidente do BC em 1995, para tomar satisfações de eventuais diligências fiscalizatórias da autoridade monetária nos porões podres do Econômico. Isso era impensável de ocorrer, e devia ter permanecido na coluna de fatos impensáveis da História.

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, vice-presidente da Corte Constitucional, bravíssimo e perspicaz relator de um dos maiores julgamentos contemporâneos – o que pôs a camarilha golpista de 8 de janeiro de 2023 atrás das grades, integrando-a um ex-presidente da República, cinco generais,  um brigadeiro-do-ar, dois delegados federais e outros militares de patentes inferiores e agentes públicos tisnados pelo ódio – não podia ter usado de sua dimensão política e institucional para abordar o presidente do Banco Central sobre uma instituição financeira privada que estava sendo corretamente investigada, punida e sancionada pelo órgão competente para fazê-lo: o BC.

A ausência de desmentidos plausíveis e tempestivos à coluna da jornalista Malu Gaspar obrigam-nos a tomar por fato a versão publicada por ela da forma como o foi. E isso é muito grave. Em nome de sua própria biografia, Alexandre de Moraes deve um pronunciamento sobre as relações que tem ou teve com Daniel Vorcaro e com o Banco Master. Não o fazer é uma mácula na trajetória até então alvissareira do ministro.

 

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