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Por Chico Alves
Teve destaque no noticiário da última semana o drama de dezenas de políticos brasileiros que estavam em Israel justamente quando o governo de Benjamin Netatnyahu lançou os primeiros ataques sobre o Irã. Os iranianos responderam disparando mísseis sobre território israelense, e os brasileiros tiveram que se abrigar em bunkers e pedir resgate ao Itamaraty.
Após o susto, todos acabaram retornando ao Brasil, mas não ficou claro o que levou um governador (Marcos José Rocha dos Santos, de Rondônia); prefeitos de diferentes regiões; vereadores; secretários municipais e estaduais; deputados e integrantes de empresas públicas a viajar para Israel, a maioria usando recursos públicos. O número total de integrantes do grupo não foi divulgado. Algumas vagas explicações sobre intercâmbio na área de segurança pública e parcerias de negócios não ajudaram a responder a esta questão.
Um vídeo obtido pelo site O Potiguar e cedido ao ICL Notícias ajuda a identificar pelo menos um dos compromissos cumpridos na viagem. Houve uma palestra ministrada aos políticos brasileiros feita por um porta-voz do exército de Israel para tentar justificar o massacre que o governo Netanyahu empreende em Gaza. A palestra não foi dvulgada na programação oficial.
Enquanto acusava a mídia internacional, e em especial a brasileira, de noticiar mentiras sobre o genocídio na Palestina, o representante de Israel divulgou várias informações questionáveis aos representantes brasileiros. O objetivo da palestra era que os integrantes do grupo se tornassem “embaixadores da verdade” no Brasil.
O porta-voz brasileiro do governo de Israel se apresentou com o nome de Rafael, e disse que sua meta era repor a verdade sobre o conflito no qual Israel está envolvido.
Afirmou que a desinformação no Brasil é grande, que há narrativas enganosas e por isso Israel tem necessidade de “passar as informações de uma forma direta para o público brasileiro sem a intermediação da mídia”, porque a “notícia chega totalmente equivocada”. Ele atacou a Globo, SBT e outras emissoras brasileiras por divulgar informações falsas sobre o conflito em Gaza.
Na verdade, acontece justamente o inverso: a linha editorial da Globo e dos principais veículos do país privilegia as versões de Israel para o massacre dos palestinos. (Veja aqui e aqui).
Na palestra, Rafael reclamou das informações baseadas em “autoridades de Gaza” ou no “Ministério da Saúde de Gaza”. Citou como mentirosas as notícias de fuzilamento de inocentes, explosão de hospitais e de que Israel está “esfomeando” a população de Gaza. “Na guerra midiática, quem mente já ganhou a guerra”, disse ele. “E as pessoas publicam essas mentiras”.
A verdade é que inúmeros casos de ataques a inocentes, destruição de hospitais e bloqueio de ajuda humanitária aos palestinos foram confirmados por representantes da ONU, Crescente Vermelho, veículos da imprensa internacional com correspondentes em Gaza e outras entidades.
Em outro trecho do vídeo, ele rebate a acusação de que Israel esteja promovendo um massacre em Gaza, com reação desproporcional à investida terrorista do Hamas, ocorrida em outubro de 2023. O porta-voz israelense contesta o conceito de proporcionalidade divulgado.
As pessoas pensam da seguinte forma: proporcionalidade é simetria. Ou seja, se o exército israelense entrar na faixa de Gaza, eliminar até mil, mil e duzentos terroristas, que foi o que fizeram aqui em outubro, e prender cerca de trezentos, quatrocentos e deixar até cinco mil feridos vai ser proporcional, porque os números são simétricos. Mas isso é um erro muito grande
— afirmouele aos políticos brasileiros.
Segundo o militar, o direito internacional teria estabelecido em 1977 que o dano colateral (morte de civis inocentes) não pode ser exageradamente maior do que a vantagem militar do ataque. Deu como exemplo um hipotético ataque a um cozinheiro do Hamas que está em uma creche com 50 crianças. Para o porta-voz, esse seria um ataque desporporcional, porque o integrante do grupo palestino teria pouca importância. Mas ele cita outro exemplo, em que um chefe importante do comando do Hamas estivesse cercado por dez civis.
A vantagem militar está bem pesada. O dano colateral existe, são dez civis, mas com certeza não é exageradamente maior do que essa enorme vantagem militar
— explicou. Ou seja: nesse caso, para Israel, o ataque seria proporcional.
O ICL Notícias consultou um dos maiores especialistas brasileiros na área, o jurista Tarciso Dal Maso Jardim, que atuou como consultor da Cruz Vermelha internacional. Ele desmentiu a tese.
Não há a menor base no DIH para esse raciocínio
— respondeu o especialista.
DIH é o Direito Internacional Humanitário, conjunto de normas que busca limitar os efeitos dos conflitos armados, protegendo pessoas que não participam das hostilidades e estabelecendo limites aos meios e métodos de guerra. Também é conhecido como “direito da guerra” ou “direito dos conflitos armados”.
Ainda sobre a quantidade de vítimas de Gaza, o militar disse que das 55 mil pessoas mortas na região, 25 mil seriam terroristas. Outras 10 mil terriam morrido de causas naturais. Rafael conclui, então, que o número de civis mortos por Israel nos ataques iniciados em outubro de 2023 é de 20 mil.
O porta-voz do governo israelense disse que, de acordo com a União Europeia, o número médio de civis mortos em uma guerra urbana é o seguinte: para cada militar abatido, morrem 9 civis. Com isso, diz que o número de mortes de civis em Gaza estaria bem abaixo dos parâmetro aceitável.
Ouvido pelo ICL Notícias, o jurista Tarciso Dal Maso mais uma vez rebateu a afirmação. “Não existe cálculo e nem é aceito esse argumento”, afirmou
Além disso, o militar israelense não deu dados que comprovassem que das 55 mil pessoas mortas em Gaza, 25 mil eram terroristas. E nem elementos para comprovar que ocorreram nesse período 10 mil mortes naturais.
Segundo a Unicef, mais de 50 mil crianças foram mortas ou feridas em Gaza desde outubro de 2023.
Veja um trecho da palestra (Vídeo cedido pelo blog O Potiguar)
[embed]https://www.youtube.com/watch?v=naQDqcvSowQ[/embed]
Ao final da palestra, o porta-voz do governo israelnse foi aplaudido pelos ouvintes.
Abaixo, parte da lista de políticos brasileiros que participou do tour a Israel:
- Marcos José Rocha dos Santos – governador de Rondônia
- Cícero Lucena – prefeito de João Pessoa,
- Álvaro Damião – prefeito de Belo Horizonte
- Mersinho Lucena (PP-PB) – deputado federal
- João Cardoso – deputado distrital (Avante)
- Claudia da Silva, vice-prefeita de Goiânia (GO)
- Francisco Nélio, tesoureiro da CNM
- Francisco Vagner, secretário de Planejamento de Natal (RN)
- Janete Aparecida, vice-prefeita de Divinópolis (MG)
- Johnny Maycon, prefeito de Nova Friburgo (RJ)
- Márcio Lobato, secretário municipal de Segurança Pública de Belo Horizonte (MG)
- Welberth Porto, prefeito de Macaé (RJ)
- Davi de Matos, chefe executivo do Centro de Inteligência, Vigilância e Tecnologia de Segurança Pública do Rio de Janeiro (Civitas)
- Flávio Guimarães, vereador do Rio de Janeiro (RJ)
- Gilson Chagas, secretário de Segurança Pública de Niterói (RJ)
- Vagner Araújo , e o secretário de planejamento de Natal,
- Ana Paula Soares Marra – secretária de Desenvolvimento Social do Distrito Federal
- Thiago Frederico de Souza Costa – secretário-executivo Institucional e de Políticas de Segurança Pública do Distrito Federal
- Rafael Borges Bueno – secretário de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural do Distrito Federal
- Pedro Leonardo de Paula Rezende – secretário estadual de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Goiás
- Ricardo José Senna – secretário-executivo de Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso do Sul Christinne Cavalheiro Maymone Gonçalves – secretária-adjunta da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul
- Marcos Espíndola de Freitas – coordenador de Tecnologia da Informação da Secretaria de Saúde de Mato Grosso do Sul
- Augusto Leonel de Souza Marques – secretário de Integração de Rondônia
- Valdemir Carlos de Góes – secretário-chefe da Casa Militar de Rondônia
- Maricleide Lima da Fonseca – chefe de Agenda do Governador de Rondônia
- Rute Carvalho Silva Pedrosa – chefe de Gabinete do Governador de Rondônia
- Renan Fernandes Barreto – chefe de Mídias do Governador de Rondônia
- Marco Antônio Costa Júnior – secretário de Ciência e Tecnologia do Distrito Federal
- Rasível dos Reis Santos Júnior – secretário estadual de Saúde de Goiás
- Keila Edna Pereira Santos – esposa do secretário Rasível
- José Eduardo Pereira Filho – secretário-executivo do Consórcio Brasil Central
- Renata Helena Cese Caram Zuquim – diretora de Relações Internacionais e Parcerias do Consórcio Brasil Central
- Bruno De Oliveira Watanabe – diretor de Projetos do Consórcio Brasil Central
- Fabrício Oliveira dos Santos – assessor de comunicação do Consórcio Brasil Central
- Ana Luisa Farias Barros Coêlho – analista internacional do Consórcio Brasil Central
- Maryanne Terezinha Mattos – vice-prefeita e secretária de Segurança Pública de Florianópolis (SC) Vanderlei Pelizer Pereira – vice-prefeito de Uberlândia (MG)
- Dilermando Garcia Ribeiro Júnior – secretário de Desenvolvimento Econômico e Inovação de Aracaju (SE)
- Paulo Rogério Rigo – secretário de Proteção Civil de Joinville (SC)
- Alexandre Augusto Aragon – secretário municipal de Segurança Pública de Porto Alegre (RS)
- Verônica Pereira Pires – secretária de Inovação, Sustentabilidade e Projetos Especiais de São Luís (MA)
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